Arquivo da categoria: Low-Carb vs Lo-Fat

Correndo e comendo com os Etíopes

*texto originalmente postado no Blog Recorrido sobre minha experiência treinando com os corredores etíopes.

Logo que cheguei à Etiópia, ainda no aeroporto, algumas coisas me chamaram a atenção. Uma delas era pessoas em forma, nada de obesos, saudavelmente magros. Além disso, não havia restaurantes fast food no local. Soube ainda depois que o Mc Donald´s não desembarcou no país. Quando fiz uma associação dessa ausência com o baixo índice de obesidade, um desses comentaristas que escrevem em 4 apoios disse:

“Energúmeno, qual a renda média? Os caras não comem, não comem nem calorias nem proteínas. São magros por desnutrição.”

Pois o mais legal de jogar com números, algo que eu adoro, é você poder colocar em teste alguns dos conceitos que temos bem arraigados. Um deles é antigo e não sobrevive nem a uma pesquisa preguiçosa. Por exemplo, quando cruzamos a lista de dados dos países organizados pelo ranking de IMC (um índice comparativo este que é pouco confiável quando olhado individualmente, mas que ajuda demais quando trabalhamos com populações heterogêneas) é que colocado lado a lado com o ranking de ingestão calórica você observa que não há um padrão claro. Ou seja, que consumir mais calorias não tem uma correlação positiva com mais obesidade. Ou ainda nas palavras de Nate Silver em sua obra mais famosa, O Sinal e o Ruído: “parece haver indícios restritos para uma associação entre obesidade e consumo calórico; pelos testes padrões, tal relação não seria qualificada como “estatisticamente significativa“.

O que isto quer dizer? Que a magreza etíope não se explica somente pelo baixo consumo calórico (o que é um fato), uma vez que há países que comem menos calorias e têm IMC maior e países bem obesos que consomem menos calorias que outros países magros.

Seria o baixo consumo proteico etíope, então? Hoje há uma espécie de cruzada entre os que acreditam na nunca testada e provada tese da gordura (ou das calorias) como engordativa quando é o carboidrato quem impacta o metabolismo de gordura. Como muita gente que se diz especialista no assunto não aceita quebra de paradigmas, abrem mão até de um dos nutrientes pouco lembrados na questão, a proteína. E, novamente, está acessível para quem gosta do tema: quando colocamos prevalência de obesidade com consumo proteico, voilà, aparecem paradoxos. Paradoxo nada mais é que um jeito chique de você não aceitar algo que vai contra sua teoria. Apesar do baixo IMC da Etiópia, você encontra vários países que consomem muito menos proteína que esses africanos.

Uma passagem muito bem descrita de uma pesquisa americana relatada em “Por que Engordamos“, livro ignorado por quem finge estudar o assunto, fala do trabalho de um pesquisador que ficava perplexo de como havia crianças desnutridas sendo carregadas por mães brasileiras claramente obesas que TAMBÉM não tinham muito o que comer nas favelas.

Obesidade (ou magreza) não se explica por quantas calorias comemos, que é o que diz esses rankings da ONU, mas QUAIS comemos. As mães faveladas brasileiras da pesquisa comiam pouco, mas consumiam muito açúcar. Suas crianças, comiam poucas calorias, pouca proteína e também pouco açúcar.

Cada um acredita no que quiser, até que controle de peso é sobre calorias, não sobre O QUE se come. Porém, para isso deverá ser feito um malabarismo lógico e argumentativo uma vez que dietas hipocalóricas têm um rico histórico de ineficiência.

Propositadamente, ignorei aqui o argumento da questão da (baixa) renda, até porque dentro da mesma sociedade desde sempre é sabido que os mais ricos são mais… magros! Desconsiderados os bolsões de miséria, renda não deveria ser questão central nesse debate.

Pelo que pude ver em minha experiência em Adis Abeba, os corredores sabem de duas coisas que deveriam ser sempre bem lógicas: comer de modo saudável é o mínimo que você deveria fazer se deseja correr bem. Mais: corrida é sobre coRRer, não sobre comer. Não há debate sobre o que comer ou beber. Não havia suplementos, não há BCAA, não havia gel nem isotônico! Isso é coisa de atleta que corre de menos e de nutricionista que sabe de menos. Após nossas sessões de treino, quem tinha mais fome comia alguma banana, bebia algo e era isso! Os que estavam se sentindo bem, iam embora sem a tarefa de comer na “janela de oportunidade”, falácia essa que deveria já ter morrido na década passada, mas que ainda sobrevive entre alguns “especialistas”.

Enfim, corrida é o esporte mais simples que existe. Para correr bem você precisa rodar muito (volume), estar magro (em forma) e ter paciência. Os etíopes fazem tudo isso. Eles comem de modo saudável que os deixa magros. Quem quer achar algum atalho que não existe cai no golpe da dieta personalizada, equilibrada, BCAA, Glutamina, etc. Não aprendem nunca.

*durante meu período lá, não vi nem comi açúcar branco (refinado), no máximo vi o do tipo cristal. Não vi fast food, não vi sorvete, não lembro de ter visto muito chocolate. Apesar da fama ofensiva a eles de que passam fome, vi mais banana, laranja, tomates, avocados e iogurtes do que já vi no Brasil. É difícil você engordar quando você não consome justamente aquilo que te faz engordar: açúcar e alimentos processados e/ou ricos em amido.

**se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Nutricionista Clandestino! (você encontra a versão impressa aqui)

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Sílvio Santos, Jejum e Nutrição.

É sintomático que dois memes de Nutrição tenham sido compartilhados na mesma semana. Já chego a eles.

No âmbito das relações humanas e profissionais, uma é defendida por quem detém via Estado o monopólio de um setor: o atendimento a quem quer emagrecer. Você nunca tem dificuldades para encontrar Nutricionista e Educador Físico dizendo que você deve ir a um deles caso queira cuidar da sua saúde e da dieta. Porém, há um aspecto crucial na área da saúde. É o que chamamos de Dissociação de Interesses. Um quer dinheiro, o outro quer saúde (*e NÃO há problema ALGUM nisso). Duvida? Eu poderia dar consultoria a alguém por 10 anos (como dou ao mesmo cliente há mais de 10 anos). Ele me paga mensalmente. Gratuitamente eu faria isso por talvez 10 semanas, não mais. Leve essa proposta ao profissional da saúde que lhe diz que a maior preocupação dele é com a sua saúde. Reforço: não há crime aqui!

Porém, no campo das ideias quem decide quem é e quem não é especialista é o TEMPO, não o Estado, não uma carteirinha de uma classe profissional que só serve para sugar o trabalho alheio sem precisar entregar NADA. Isso mesmo: CRN e qualquer outro “C” ganha dinheiro sem precisar fazer NADA. VOCÊ quem trabalha para sustentar vagabundo. *mas é divertido que você não tem nenhum trabalho para encontrar muita gente que ache normal. É até curioso que implicitamente fique aqui um reconhecimento de que essa pessoa não se sinta nem segura sem alguém o atestando que ele seja útil para algo.

Tempo atrás conheci o Efeito Lindy, que é uma das heurísticas mais robustas que existem. O efeito diz que a expectativa de vida de uma ideia é proporcional ao seu tempo de vida.


Aplicado aos tênis de corrida – prometo já chegar na Nutrição/Emagrecimento – os maiores atletas por bem mais da metade do século passado corriam com tênis sem suporte. Desde o final dos anos 70 a indústria tenta nos empurrar um novo conceito de tênis que não só não se mostra eficiente (como evidencia qualquer pesquisa preguiçosa que qualquer um pode fazer), como seus próprios tênis, de tão ruins que são como conceitos de calçados seguros, vão morrendo temporada após temporada.

Você pode enganar a todos, mas apenas não engana a duas entidades: a Lindy e ao Tempo.

Essa semana tem uma imagem rolando chamando Jejum de moda. Ele tem sido registrado como seguro por pelo menos milhares de anos. Outro sempre chamado de moda é o Low-Carb, só que eis que ele sempre foi a regra. Sempre. O Low-Fat é algo inventado SEM estudos apenas por volta dos anos 60 e 70.

Pois se vivemos uma época racional regida pela irracionalidade de falsos especialistas, talvez a ferramenta mais útil e mais segura seja recorrer justamente ao tempo! Jejum e Low-Carb sempre estiveram entre nós. Já a entrada das recomendações defendidas pelas associações de sempre, que só vivem e só querem seu dinheiro, ocorre justamente quando o planeta vive sua pior crise de obesidade e diabetes.

Assim chegamos ao grande Sílvio Santos. Ele não é profissional de Saúde, ele tem algo a perder: sua Saúde. O que ele mais quer é saúde. E ele tem o tempo ao seu lado: não há como uma dieta low-carb engordá-lo. Por mera sabedoria de observação (seja do tempo, seja do que está em volta dele), ele concluiu que a restrição de carboidrato refinado serve para emagrecer duas fãs obesas. Não sei a opinião de quem criou a imagem, mas sei que vc não terá dificuldade de ver gente que se acha inteligente, profissional de saúde, achando que ela está certa. Que há moda em algo de milhares de anos. Eles precisam ter aulas de raciocínio lógico com SS, que não sabe diferenciar mitocôndria de pâncreas, mas sabe que não tem como o delírio do Low-Fat contradizer milhares de anos.

É o tempo, estúpido.”

Danilo Balu
autor

*se você gostou da análise que leu aqui e quer saber coisas que nunca lhe disseram sobre Nutrição e Emagrecimento, o convido a ler meu livro O Nutricionista Clandestino (também na versão impressa aqui).

Quando Esquimós dão bola à Nutrição…

É sempre importante, diria eu fundamental, estudar Nutrição sem NUNCA tirar o pé da questão evolutiva, histórica. No e-bookO Nutricionista Clandestino” (e na versão impressa aqui) listo alguns casos de povos que se alimentavam de extremos, sem NENHUMA consequência negativa à saúde. E por que seria importante estudar ou saber isso? Pois temos na história povos que comiam enormes quantidades de gorda carne vermelha sem sofrer problemas cardíacos.

E todo nosso medo de carne vermelha (na verdade por falta de provas esse medo passou a ser gordura, depois gordura saturada e depois colesterol) vem de associações pobres, frágeis que não encontram nenhum suporte em uma análise bem-feita. Será no futuro reconhecidamente como uma das maiores vergonhas da Nutrição, uma área que se considera ciência, mas que é hoje em grande parte de suas diretrizes, apenas algo livre de evidências, é assim apenas uma crença sem um Deus a louvar.

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Na verdade louvam. A Nutrição tem seu demônio (a gordura saturada) e tem no carboidrato, um nutriente não-essencial à vida humana, o seu improvável herói.

Pois agora pelas mãos de pesquisadores russos nos chega que 2 povos na Sibéria, que por séculos se alimentavam basicamente de carne gorda e de peixe, fizeram involuntariamente mudanças em suas dietas. Qualquer diretriz nutricional diria para os Nenets e Khanty consumirem menos gordura saturada, menos colesterol e mais carboidratos.

Agora eles passaram a comer mais carboidrato. Resultado?

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Eis que aparecem os primeiros problemas de obesidade nesse povo Ártico!

Já expliquei como nossas avós são melhores que os Nutricionistas. O tempo sempre nos mostra o que é melhor: uma dieta de séculos ou teorias de 40 anos JAMAIS provadas, NUNCA antes testadas?

Quer engordar? Quer adoecer? Fácil! Ouça e siga com atenção o que um Nutricionista tradicional (o que segue as diretrizes) tem a dizer!

Sobre Dieta Personalizada e Equilíbrio

Uma pesquisa recente no PROTESTE fez um bom barulho. Basicamente sua conclusão era: dietas prescritas por nutricionistas podem não ser confiáveis. Antes de questionar os erros, entidades de classe como o CRN-3 ou o CFN fizeram o que se espera deles: atacaram sem reconhecer qualquer culpa própria. É só para isso mesmo que eles funcionam. Se engana quem pensa que eles têm alguma preocupação que seja com um paciente. *a pesquisa acabou em uma entrevista minha no jornal O Tempo que você pode ler aqui.

O irônico disso tudo é que parte da reclamação está no fato das dietas serem as mesmas a todos ainda que com problemas distintos. Como até relógio quebrado acerta duas vezes ao dia, o problema não é o remédio, mas quem o recebe.

O erro na Nutrição não está no discurso mentiroso e ignorante das entidades dizendo que a vantagem de um nutricionista é que ele irá prescrever um cardápio individualizado. Alguém com problema não quer solução única, que só ele tenha. Um doente quer antes de tudo um remédio, ainda que o mesmo funcione a todos!

Imagine a Medicina tendo que inventar um remédio exclusivo a cada doente! Imagine!

Imagine um treinador tendo que criar do zero treinamento a cada novo corredor. Imagine!

Isso não existe. A Nutrição dá o mesmo remédio que não funciona a (quase) ninguém, e é uma Ciência que está tão nas trevas porque entre outras coisas erra em não saber sequer identificar que seu problema não é o remédio ter que ser único, mas ele não funcionar! A abordagem de emagrecimento com redução calórica, quebrada em várias refeições ao dia (de 3 em 3 horas) e com baixa gordura é algo que estudo após estudo se mostra se basear na fé de quem se diz especialista, mas que se baseia na esperança e na boa vontade.

Não só o foco (individualização e não o remédio em si) está tão errado, como ele mesmo parece ser sobrevalorizado. Se ninguém espera que a Medicina (ou a Farmácia) invente um remédio diferente para cada doente por que a Nutrição e a Educação Física pensam serem capazes de fazer isso a cada novo cliente? Isso parece mais uma valorização de um serviço do que necessariamente buscar uma melhora dele. Novamente é a fé do discurso suplantando a prática.

Duas recomendações da Nutrição me tiram dos nervos: dieta equilibrada e individualizada.

 

DIETA EQUILIBRADA – um erro conceitual

Sobre equilíbrio, ele só existe no delírio do nutricionista, não na natureza, no mundo real. A dieta de todos os animais é baseada em extremos, no absoluto, são radicais. Mas o nutricionista acha que nós devemos comer com equilíbrio. O interessante é que isso equivale comer 33% de carboidrato, mas esse seria um equilíbrio do mal. Esse equilíbrio não pode, então não serve. É o mundo de sonho da categoria que enxerga um animal caçando carne e depois indo buscar folhas e grãos para montar a refeição.

Tem mais. Jantar de vez em quando mousse de chocolate é um equilíbrio, mas uma vez que você defende tamanha carga de açúcar, não precisamos pagar um profissional para orientar a fazer isso. Profissionais assim se tornam inúteis. Qualquer criança pode me orientar desse jeito, a comer um pouco de tudo, ainda que faça mal à minha saúde, sem me cobrar por essa sandice. Esse tipo de Nutricionista é aquele que sequer se posiciona. E quem não se posiciona não tem o que dizer. Se não tem o que dizer é no mínimo desnecessário.

O equilíbrio torna qualquer um nutricionista. O equilíbrio torna qualquer nutricionista totalmente dispensável.

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DIETA INDIVIDUALIZADA – um sonho

Você consegue imaginar você cuidando de 3 animais da mesma raça e para cada um deles dando um cardápio diferenciado que não seja na quantidade ditada pela fome DELES? Pois é. Tem muita gente da categoria que acha que sim. Que dá para ter 3 labradores e um só comer carneiro, outro carne e legumes e um outro ração.

Dieta individualizada é aquela espuma que a gente coloca no café para poder cobrar mais. Se você faz isso, ok. Mas se você acredita nessa espuma, você é de certa forma perigoso. Um porque você acha que tem mais controle do que realmente tem. E esses são justamente os mais perigosos.

 

A VOX veio com um artigo recente falando sobre dietas personalizadas. Fala de iniciativas que prometem (e não entregam) aquilo que nutricionistas dizem fazer. De duas uma: em breve podemos trocar uma consulta por um aplicativo gratuito no Google Play ou Apple Store, e a categoria desanda, ou ninguém desses entrega o que promete. Eu acho que ninguém entrega, mas a categoria não precisa necessariamente desandar.

Se você juntar 1.000 caboclos, homens, caucasianos, fisicamente ativos, entre 20 e 30 anos, com 70kg (+/-15kg) querendo correr uma maratona podendo seguir UM treino único, com certa segurança podemos dizer que mais de 80% irá melhorar suas marcas. Ponto. Nenhum treinador de grupo vai negar isso, que sabemos uma recomendação populacional de atividade física que tenha resultado positivo na média de uma população. Aqui temos que o esporte SABE o que funciona para o TODO (população) e aprende o que NÃO funciona para o indivíduo. É MUITO mais fácil, assim, acertarmos a população que o indivíduo, por uma questão de individualidade biológica, por uma questão de eliminação já tentada ao longo da história!

O mesmo na Medicina. Mil doentes. Aplique UM remédio em dose igual, e você sabe que a a maioria irá se curar.

Já na Nutrição, a população atual vem SEGUINDO as recomendações de menos gordura, menos calorias, mais exercício, menos carne, menos gordura saturada, mais frutas… (*essa afirmação você encontra respaldo nos levantamentos populacionais mais sérios mundo afora). PORÉM, ainda que seguindo, estamos cada vez mais gordos. A Nutrição, que NÃO sabe orientar no TODO, acredita que saberá guiar no individual, que lembremos, é mais difícil.

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A Nutrição ganharia MUITO mais se parasse com a tese sem fundamento de que sabe o que é melhor para um indivíduo quando ela ainda não descobriu nem entendeu o que funciona para a população. Ela só conseguirá chegar mais perto daquela, na hora que tiver dominado esta.

Por isso que prometer dieta personalizada e dieta equilibrada diz muito sobre o que o seu nutricionista sabe sobre como funciona Nutrição.

O açúcar pode ser vilão, mas é a fala do médico brasileiro é que é sintomática!

O UOL está longe de ser uma fonte minha para informação quando o assunto é Nutrição. Mas a matéria que saiu dias atrás sobre colesterol, gordura e açúcar é um primor! Nela estão ao menos 2 nomes essenciais para entendermos melhor a questão (Robert Lustig e Ancel Keys) e ao menos 3 estudos fundamentais!

Basicamente a reportagem fala sobre a culpa precipitada que a gordura levou como responsável nas doenças cardíacas (falo melhor aqui). Resumidamente, houve uma conclusão baseada em achismo, ciência malfeita, ciência questionável (por parte de Ancel Keys) e sobreposição de lógica (“se a artéria entupida está bloqueada com gordura, comer gordura deve ser a causa”).

A ótima Zoe Harcombe diz uma recomendação da qual eu compartilho: se você não quer se preocupar com o colesterol, não o meça. Ele confunde e você não consegue analisar uma informação de forma dieta que hoje sabemos ser fundamental (o tipo do seu LDL). Podemos dizer que hoje o colesterol é superestimado em indivíduos normais ou não.

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Mas a comunidade médica e de nutricionistas é tão viciada, é tão fiel às suas crenças que não há pesquisa suficientemente benfeita ou em tamanho tal que os remova daquilo que eles tiveram nas aulas da faculdade sem questionar.

Nada (nada!) é mais sintomático do que uma jornalista enfileirar o raciocínio fundamentando com argumentos usando um dos profissionais mais pertinentes da atualidade (Lustig) e ter que ouvir o contraponto de um médico brasileiro. As falas de Lustig ainda que contendo opinião são sempre feitas com suporte de análise. Mas isso fere a fé do médico brasileiro. Então a fala dele vem com um “não concordo”. Por quê? Porque sim. As conclusões dos interessantes estudos nos quais Lustig fundamenta sua fala não estavam nos livros do tal médico brasileiro. Então ele não pode acreditar, nem concordar.

É esse o nível do nosso debate.

A Eva foi a um Veterinário Clandestino

20161016_182608-1A cachorra da esquerda com cara de tonta é a Eva. No meio do ano passado ela decidiu tirar um ano sabático em uma chácara em Lavras (MG). Desolados, eu e a Maíra decidimos nos isolar em Dublin para lidar com tamanha perda. Voltamos esse ano decididos a convencê-la a mudar de ideia e de casa. Fomos até lá e a jogamos no porta-malas do carro porque manda quem pode, obedece quem tem focinho. Chegando em SP achávamos que ela ia perder um pouco dos muitos quilos que ganhou. Passaram-se semanas e nada. Foi aí que eu tive uma ideia maligna, sagaz, audaz: vou fazer essa cachorra emagrecer.

Lendo conselhos profissionais dão a ideia de uma academia para cachorros e dieta. Segurei o riso sobre a tal academia. Primeira providência mesmo foi limitar o acesso dela ao pote de ração. Há 5 animais que praticamente somente ganham peso com várias refeições ao dia: gado, galinhas, porcos, ovinos e humanos enganados por nutricionistas que prescrevem lanches a cada 3h. A 2a providência era mexer na dieta. Novamente um profissional sugeriu uma ração especial. Qual a diferença, perguntei: “a ração emagrecedora tem menos gordura”. Tenho 3 certezas sobre um veterinário que me recomenda isso: uma é que ele não sabe muito de fisiologia da insulina, outra é que ele acredita que quando um fabricante retira gordura do alimento, para compensar a massa perdida em seu lugar ele coloca esperança, fé e luz. E por fim, esse profissional, igual a Eva, quando pensa, o faz em 4 apoios. Saí de lá me fingindo de surdo.

Fui ao mercado e comprei barrigada suína por R$6/kg (a ração custa R$9/kg, o que só a torna ainda mais cara caso normatizada por R$/caloria). Praticamente zerei a oferta de ração pela manhã e comecei a dar apenas barrigada de noite. A Eva decidiu ela abandonar a ração. E ela não tem fome, já que na base da chinelad….-APAGAR – da educação e de muito carinho, ela foi ensinada pela Maíra a dar a pata para pedir comida. É sério. Ela não pede, espera o jantar. E come a carne. Nada mais. Resultado. Emagreceu. Voltou a ser a cachorra mais esbelta da Chácara Santo Antônio e a correr tiros a 4´00/km comigo na praça (ela pediu para eu enfatizar que ela é sempre sub-5).

A Eva pediu também para reforçar o que qualquer estudante de Nutrição deveria saber: estava sedentária porque gorda, não gorda porque sedentária. Muita gente não sabe disso, mas a Eva sabe.

A tonta do lado direito é a Pepper, recém-chegada e a maior fã da Eva que por ciúmes nutre ZERO sentimentos por ela. A mais nova está felizona porque também só janta carne agora (barrigada, moela, língua bovina… tudo mais barato que ração que tem batata, milho, soja, QUINOArgh…) e de manhã um pouco de ração com banha derretida.

Antes que alguém do CRMVSP venha me encher o saco, não perca seu tempo, vocês são SAFADOS como qualquer um do CRN, CFN, CREF, SBD, ASBRAN… Me diga qual seu preço que eu pago pra você não deixar comentário. Eu sei que é assim que funciona, eu sei que é isso o que você mais quer.

E quem for falar em insuficiência renal ou colesterol, deixo meu recado: não o faça em público… vai ficar claro para todo mundo que você não sabe da questão associativa e não causal disso…

Gordurafobia e o medo do Low-Carb.

"A dieta de pouca gordura que te dou há 20 anos te deu diabetes, pressão alta e doença cardíaca... ooops"

“A dieta de pouca gordura que te dou há 20 anos te deu diabetes, pressão alta e doença cardíaca… ooops”

Pouco mais de 3 semanas atrás um texto incrível do The New York Times (aqui traduzido ao português) ganhou destaque pelo número de compartilhamentos e porque Gary Taubes, pai do low-carb moderno, profetizou que ele poderia ser o ponto de virada para que finalmente os profissionais de saúde aceitem sem medo a dieta de baixo carboidrato (low-carb). 2 dias depois o mesmo veículo publicava outro texto incrível explicando como a indústria do açúcar transformou a gordura em vilã na Nutrição (aqui traduzido por Erik Neves).

O primeiro texto basicamente, mas muito bem fundamentado, argumenta de forma bem direta que antes de uma intervenção cirúrgica buscando emagrecimento, as pessoas deveriam tentar antes cortar o carboidrato da dieta porque ele é o macronutriente que de longe mais impacta os níveis de insulina no sangue. Este é o hormônio mais diretamente relacionado com o aumento dos estoques de gordura e que ao mesmo tempo impede que o corpo a utilize como energia.

Taubes em seu incrível livro Good Calories Bad Calories explica em uma pesquisa completa e minuciosa como que sem ciência definimos equivocadamente o controle de peso como sendo uma questão matemática, de déficit calórico, e não algo biológico e de disfunção hormonal; e Taubes ainda fala de como direcionamos todas as politicas de Saúde Pública em uma direção que causou a maior crise de obesidade da história ao promovermos exercício, dietas low-fat e dietas de baixa caloria como abordagens primárias no emagrecimento.

O que mais assusta na Nutrição não é o fato de muita coisa não possuir resposta. Isso é normal em inúmeros campos do conhecimento. O que mais preocupa quando o assunto é alimentação é que as diretrizes não são baseadas em estudos controlados nem em ciência, mas em desejo, boa vontade e torcida.

img-20150901-wa0015Enquanto escrevo isso, assisto ao Globo Repórter falando sobre hipertensão e diabetes. Quem sempre é procurada para falar é a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Ela mais parece a assessoria de imprensa da indústria farmacêutica e tem em seu presidente um torcedor que virou porta-voz deixando de lado seu diploma de médico e, mais importante, o seu juramento.

Eu falo isso porque eles têm o hábito de ignorar o que mostram os estudos controlados para continuar a medicamentar pessoas doentes. O texto do The New York Times cita 40 estudos falando sobre a segurança de se cortar carboidrato. Eles não são únicos. Aqui você tem mais 25 estudos comparando dieta low-carb com o que prega a SBD e colegas. E aqui você tem mais 54.

Você não precisa nunca acreditar em ninguém justamente porque os estudos estão disponíveis para quem quiser ver tirando o peso da torcida. A dieta low-carb se mostra segura, mais eficiente, logicamente mais sensata (já que reduz a liberação de insulina, o hormônio chave no processo de engorda) e NO MÍNIMO não inferior. Ou você pode fazer justamente o que muitos profissionais insistem em não fazer ao ignorar o que mostram os dados porque eles simplesmente não querem acreditar, e preferem ficar desatualizados.

Uma dieta low-carb está longe de ser infalível. Nosso corpo regula nosso peso por uma série de mecanismos que incluem ainda a quantidade de refeições, tempo de jejum, ciclo circadiano, estresse, sono… São justamente essas variáveis que impedem que a taxa de sucesso seja de 100%. Aliás, nunca será. Como disse aqui, não possuir todas as respostas é algo normal na ciência. O que não é normal é como quem vai falar sobre low-carb ignora o que já há produzido.