Arquivo da categoria: Emagrecimento

Você e a Balança

As pessoas que eu atendo sempre me perguntam: você vai medir meu peso e minha porcentagem de gordura? Eu não! Não sei nem o meu peso! Por que acha que quero saber o seu?!

O que me importa é você emagrecer e comer melhor! Quer saber quanto pesa? Um Labrador bem treinado consegue sozinho. Basta você ir a uma farmácia. Sua porcentagem? Até gostaria de saber, mas acontece que ela é inútil. Aqueles aparelhos de bioimpedância até conquistam um cliente mais desavisado, tal qual um GPS novo encanta um corredor mais novo. Mas ambos são 100% dispensáveis, e imprecisos de doer.

Desde que passei na Matéria “Medidas e Avaliação” na EEFE-USP sem nunca fazer uma medida de dobra cutânea, nunca mais usei aquela bobagem. Não serve para nada. Todo mundo sabe disso, mas continuam usando. Eles que se expliquem.

Nossa relação com a balança, assim como livros de Nutrição, são explicados melhor quando vem de gente de FORA da Nutrição. É sempre assim. De todos os livros que li até hoje e acho incríveis, só um foi escrito por Nutricionista (The Obesity Epidemic, da Z. HARCOMBE). Isso porque a única coisa que você aprende estudando em uma Faculdade de Nutrição é como ser um MAU Nutricionista. Só isso. E não é exclusividade daqui, conversando com ela ano passado ela me confirmou que no Reino Unido é igual, para ser um bom Nutricionista você tem que NEGAR aquilo que lhe ensinaram, fazer quase o oposto sempre.

E é também de fora da área que vem como lidar melhor com a balança. Como disse, eu NUNCA peso nem peço que meus clientes se pesem. Eles que se pesem depois de um tempo que ELES estipulam. Por quê?

Primeiro porque o feedback na balança é demorado. Você muda a dieta agora e colhe resultados apenas em questão de semanas, não dias. A pessoa engorda 10kg em 5 anos e quer perdê-lo em 5 semanas. Ela precisa entender um pouco de Fisiologia, não de uma balança.

E segundo, como bem explicou recentemente Dan Ariely, um profissional da Economia Comportamental, usando estudos de 2 gênios da área, Daniel Kanehman e Amos Tversky, nós não lidamos igualmente com perdas e ganhos. Ganhar 3kg nos deixa (em magnitude) muito mais aborrecidos do que perder 3kg.

Porém, tal qual nossa temperatura corporal e mesmo altura variam ao longo do dia, uma flutuação de peso só serve para nos deixar ansiosos e insatisfeitos. Então quer saber seu peso? Se pese o menos possível, na mesma balança e no mesmo horário. O cinto da sua calça ou aquele vestido é o melhor feedback de curto prazo que você precisa ter.

*Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Nutricionista Clandestino! (você encontra a versão impressa aqui)

Anúncios

Correndo e comendo com os Etíopes

*texto originalmente postado no Blog Recorrido sobre minha experiência treinando com os corredores etíopes.

Logo que cheguei à Etiópia, ainda no aeroporto, algumas coisas me chamaram a atenção. Uma delas era pessoas em forma, nada de obesos, saudavelmente magros. Além disso, não havia restaurantes fast food no local. Soube ainda depois que o Mc Donald´s não desembarcou no país. Quando fiz uma associação dessa ausência com o baixo índice de obesidade, um desses comentaristas que escrevem em 4 apoios disse:

“Energúmeno, qual a renda média? Os caras não comem, não comem nem calorias nem proteínas. São magros por desnutrição.”

Pois o mais legal de jogar com números, algo que eu adoro, é você poder colocar em teste alguns dos conceitos que temos bem arraigados. Um deles é antigo e não sobrevive nem a uma pesquisa preguiçosa. Por exemplo, quando cruzamos a lista de dados dos países organizados pelo ranking de IMC (um índice comparativo este que é pouco confiável quando olhado individualmente, mas que ajuda demais quando trabalhamos com populações heterogêneas) é que colocado lado a lado com o ranking de ingestão calórica você observa que não há um padrão claro. Ou seja, que consumir mais calorias não tem uma correlação positiva com mais obesidade. Ou ainda nas palavras de Nate Silver em sua obra mais famosa, O Sinal e o Ruído: “parece haver indícios restritos para uma associação entre obesidade e consumo calórico; pelos testes padrões, tal relação não seria qualificada como “estatisticamente significativa“.

O que isto quer dizer? Que a magreza etíope não se explica somente pelo baixo consumo calórico (o que é um fato), uma vez que há países que comem menos calorias e têm IMC maior e países bem obesos que consomem menos calorias que outros países magros.

Seria o baixo consumo proteico etíope, então? Hoje há uma espécie de cruzada entre os que acreditam na nunca testada e provada tese da gordura (ou das calorias) como engordativa quando é o carboidrato quem impacta o metabolismo de gordura. Como muita gente que se diz especialista no assunto não aceita quebra de paradigmas, abrem mão até de um dos nutrientes pouco lembrados na questão, a proteína. E, novamente, está acessível para quem gosta do tema: quando colocamos prevalência de obesidade com consumo proteico, voilà, aparecem paradoxos. Paradoxo nada mais é que um jeito chique de você não aceitar algo que vai contra sua teoria. Apesar do baixo IMC da Etiópia, você encontra vários países que consomem muito menos proteína que esses africanos.

Uma passagem muito bem descrita de uma pesquisa americana relatada em “Por que Engordamos“, livro ignorado por quem finge estudar o assunto, fala do trabalho de um pesquisador que ficava perplexo de como havia crianças desnutridas sendo carregadas por mães brasileiras claramente obesas que TAMBÉM não tinham muito o que comer nas favelas.

Obesidade (ou magreza) não se explica por quantas calorias comemos, que é o que diz esses rankings da ONU, mas QUAIS comemos. As mães faveladas brasileiras da pesquisa comiam pouco, mas consumiam muito açúcar. Suas crianças, comiam poucas calorias, pouca proteína e também pouco açúcar.

Cada um acredita no que quiser, até que controle de peso é sobre calorias, não sobre O QUE se come. Porém, para isso deverá ser feito um malabarismo lógico e argumentativo uma vez que dietas hipocalóricas têm um rico histórico de ineficiência.

Propositadamente, ignorei aqui o argumento da questão da (baixa) renda, até porque dentro da mesma sociedade desde sempre é sabido que os mais ricos são mais… magros! Desconsiderados os bolsões de miséria, renda não deveria ser questão central nesse debate.

Pelo que pude ver em minha experiência em Adis Abeba, os corredores sabem de duas coisas que deveriam ser sempre bem lógicas: comer de modo saudável é o mínimo que você deveria fazer se deseja correr bem. Mais: corrida é sobre coRRer, não sobre comer. Não há debate sobre o que comer ou beber. Não havia suplementos, não há BCAA, não havia gel nem isotônico! Isso é coisa de atleta que corre de menos e de nutricionista que sabe de menos. Após nossas sessões de treino, quem tinha mais fome comia alguma banana, bebia algo e era isso! Os que estavam se sentindo bem, iam embora sem a tarefa de comer na “janela de oportunidade”, falácia essa que deveria já ter morrido na década passada, mas que ainda sobrevive entre alguns “especialistas”.

Enfim, corrida é o esporte mais simples que existe. Para correr bem você precisa rodar muito (volume), estar magro (em forma) e ter paciência. Os etíopes fazem tudo isso. Eles comem de modo saudável que os deixa magros. Quem quer achar algum atalho que não existe cai no golpe da dieta personalizada, equilibrada, BCAA, Glutamina, etc. Não aprendem nunca.

*durante meu período lá, não vi nem comi açúcar branco (refinado), no máximo vi o do tipo cristal. Não vi fast food, não vi sorvete, não lembro de ter visto muito chocolate. Apesar da fama ofensiva a eles de que passam fome, vi mais banana, laranja, tomates, avocados e iogurtes do que já vi no Brasil. É difícil você engordar quando você não consome justamente aquilo que te faz engordar: açúcar e alimentos processados e/ou ricos em amido.

**se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Nutricionista Clandestino! (você encontra a versão impressa aqui)

Dia do Lixo: pode ou não?

Em apenas uma semana falando com uns 3 clientes recebi exatamente o mesmo retorno: “Balu, minha perda de peso estacionou”. Ignoremos por enquanto que nosso peso é tudo, menos linear, que tal qual nossa temperatura varia ao longo do dia (mesmo sem esporte nem tomar banho de sol), que nosso peso está longe de ser uma coisa fixa. Minha primeira reação foi ficar um pouco chateado. Comigo mesmo. Como não quero terceirizar a culpa, prefiro acreditar sempre primeiro que o problema foi a minha intervenção.

Deve haver alguma coisa errada no que EU orientei a fazer… Então pedi: “Me mande absolutamente TUDO o que vc fez e/ou comeu”.

Nesse meio tempo batia papo com outro cliente, que virou amigo. Ele vinha perdendo peso, consistente, bonito de ver… uma vez por ano todos nós fazemos aniversário. Ele foi celebrar o dele. Em menos de 4 dias ele ganhou 4kg.

4kg.
Em 4 dias.

Se eu convencesse você que tenho a fórmula para emagrecer 4kg em 4 dias, além de estar mentindo, eu ficaria rico. Pois, então. A capacidade que temos de fazer bobagem à mesa é enorme. Lembre-se daquele rodízio de pizza que você foi tempo atrás, aquela ida ao Outback, aquele churrasco “do mal”… Lembrou? Agora multiplique isso por 3 ou 4 vezes em um período de 16 horas. Esse é o tamanho do Dia do Lixo.

O nosso peso é muito resultado da nossa regra, não de nossa exceção. 1 dia a cada 6 não é exceção, é regra!

Sabe… eu tive sorte que essa pessoa se pesou depois das comemorações de aniversário. Não serviu pra mim… serviu para que ELE soubesse o peso das escolhas.

Aí voltamos aos mesmos que me disseram que “estacionaram”… Quando começaram a me passar aquilo que comeram, 100%, sem nenhuma omissão você descobre que tem uma barra de proteína com 5g de açúcar (que só você e seu nutricionista podem achar saudável) aqui, um chá de latinha com tanto açúcar quato qualquer refrigerante ali, uma pizza inocente no happy hour do trabalho, só um pão de batata no dia que saiu tarde de casa… é quase como deixar de fumar, só que dando “só” uns 2 tragos por dia. Não dá pra saber os efeitos do abandono quando não há abandono.

Não há fórmula que funcione 100%. Mas há fórmula que funcione praticamente 100% para engordar. E quem engorda, obviamente não emagrece. Achar que a cada 6 dias você tem um para fazer o dia do lixo é de um otimismo que eu não consigo compartilhar…

*Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Nutricionista Clandestino! (você encontra a versão impressa aqui)

De chocolate, leite achocolatado e pós-treino.

Tempo atrás falei rapidamente como em questão de 10 anos fabricantes de chocolate convenceram centenas de veículos, uma infinidade de profissionais de saúde e milhões de consumidores a achar que comer chocolate 70% é saudável (resumo: não, não é nada saudável). Tenhamos sempre em mente algo que funciona na vida que também SEMPRE funciona na Nutrição: nada nunca é de graça.

Em 2015 houve um episódio que mostrou a fragilidade e a baixa confiabilidade das recomendações nutricionais quando feitas em veículos impressos, TVs ou portais. Para demonstrar esse ponto, o jornalista John Bohannon divulgou propositadamente um estudo falso que dizia que “chocolate acelera o emagrecimento”. Sua Fake News foi publicada em TVs, revistas, em mais de 20 países, em mais de uma dúzia de idiomas, no maior jornal europeu e em outros diários internacionalmente famosos.

Então se chocolate não emagrece (e não é saudável)… POR QUE HÁ QUEM ACHE ACHOCOLATADO UM BOM LANCHE??

Bem antes da pegadinha de Bohannon, ainda em 2006 uma orquestragem da indústria nos enganou de outra forma. Fomos levados a acreditar que leite achocolatado (iguais aqueles que vêm em caixinha com canudinho) seriam bom repositores pós-treino. Um estudo (JOHNSTON et al) propositadamente mal desenhado foi financiado pela “Dairy and Nutrition Council” de um jeito a dar a entender que beber uma ou duas caixinhas após treinar forte era a melhor e mais barata alternativa de reposição alimentar. O resultado? Não deve haver UM veículo que cubra corrida que não tenha sugerido achocolatado como boa alternativa. Mas…

ELE NÃO É BOM. E EXPLICO OS MOTIVOS.

Tal qual isotônicos, achocolatados contêm água e energia. Mas contêm além disso proteína, cálcio e vitamina D. Porém, nutricionalmente falando, achocolatado é basicamente açúcar líquido disfarçado. MUITO açúcar. MAIS do que refrigerante.

Deixemos de lado a questão se leite pasteurizado é bom ou não (é ruim, mas fica para outra oportunidade). Esqueça que achocolatado engorda ou sabota sua dieta. Ignore que ele é feito basicamente com ingredientes artificiais ou que ele rouba o lugar de alimentos de verdade que você deveria estar consumindo. O que podemos com segurança afirmar é que achocolatado como lanche ou opção é UMA DAS PIORES alternativas que alguém pode escolher após o treino. Dizer que é melhor que isotônico não só não é verdade (o estudo não chegou a esse veredito) como não deixa de ser uma comparação esdrúxula, afinal, compara dois lixos nutricionais. Não deve haver profissional de saúde minimamente competente que sugira isotônico que não seja apenas DURANTE a corrida (ou qualquer outra atividade).

A estratégia de marketing feita com o chocolate 70% e com o achocolatado nos reforça de 2 pontos: um é que assim como qualquer outro doce, esses 2 produtos devem ser encarados como sobremesa, doce, indulgência. O segundo e mais importante é que quem mais se beneficia de chocolate 70% como saudável ou de achocolatado como pós-treino é a indústria que vende, não você que compra ou consome.

*Prefiro não entrar na questão de mães que colocam achocolatado na lancheira de seus filhos

**Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Treinador Clandestino! (você encontra a versão impressa aqui)

No meio do caminho havia uma pedra. Mas segundo a especialista era integral, então OK!

Tempo atrás eu vinha sentado em um ônibus e à minha frente havia duas mulheres. Uma bem gordinha, mal cabia no assento. Sua amiga era magra. No meio do trajeto a gordinha abre uma lancheira térmica, puxa um entre 3 tupperwares e tira um garfo plástico para comer frutas.

Apesar do enorme sobrepeso, ela tinha uma missão que o inconveniente de ser em um ônibus, ainda que vazio, não podia ser postergada: dar umas garfadas para comer alguns pedaços de frutas. Essa garota não tinha fome. O tamanho dela me faz ter certeza que se tivesse, ela teria que comer mais, comida na lancheira não faltava. Aquilo era uma tarefa, claramente instruída por um especialista.

É irônico que ano passado o Nobel vá para um defensor do jejum e o deste ano a um que estude o ciclo circadiano (relógio biológico). É tudo muito lógico que dentre as duas que vinham à minha frente, a com grande sobrepeso fosse a instruída a comer melhor e menos vezes. Mas na lógica da nutrição essa mulher tem que comer mais vezes! Faz sentido?

NENHUM, eu sei! Você não precisa me responder! Os americanos quando passaram a comer mais vezes viram explodir os índices de obesidade. As diretrizes estão erradas? Dirão que não, dirão que eles não comeram melhor. A culpa é sempre de quem tomaria o remédio de forma errada, não de quem prescreveu um remédio nunca testado.

Saí de lá com a certeza que aquela mulher vai continuar mal cabendo no banco do transporte público ainda que ela faça tudo o que o especialista mande. É bem triste. É desesperador.

*a magra não comeu um pedaço de fruta sequer. Coincidência? 
**Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Nutricionista Clandestino! (você encontra a versão impressa aqui)

Frutas são tão naturais quanto um requeijão. OU AINDA: o sabor doce não é natural.

Frutas são saudáveis? Sem dúvida!
São alimentos “bons”? Eu não iria tão longe.

Quando falamos em Emagrecimento ou de “Saúde”, podemos falar com certa segurança que existem os alimentos que atrapalham e os que não fazem nada. Nem mesmo carnes ou verduras (folhas & legumes) são essenciais. Porém, fazem nossa vida muito mais fácil quando queremos ter Saúde. As frutas nem sequer entram nesse grupo.

As frutas ao longo de nossa história evolutiva nunca foram tão doces como são hoje. Frutas como conhecemos hoje são puro resultado da agricultura, de sucessivos cruzamentos que resultaram em aumentos progressivos de tamanho e, mais importante, do sabor doce, da doçura (maior concentração de Frutose e redução da quantidade total das fibras). Lição para a vida:  a Dissociação de Interesse… o feirante e o agricultor querem te vender frutas, não aumentar sua expectativa de vida.

Melancias em pintura antiga…

Porém, o sabor doce é viciante. Fomos programados por milhares de anos a ter uma atração supernormal por ele. Não é mera coincidência que mousse de chocolate gere mais prazer e atração que um rabanete.

Costumo dizer aos clientes que atendo que hoje alguém no interior do Maranhão pode comer 2 ou 3 kiwis por dia, fruta do sudeste asiático. O primeiro kiwi que eu vi foi na adolescência. A maior manga que vi no pé que havia na casa da minha avó é menor do que a menor manga dos supermercados. Uma manga não é uma fruta. É um produto que equivale a pelo menos 2.5x do que era uma fruta de apenas 20 anos atrás.

As frutas, e isso é fascinante, na antiguidade não eram doces. Em um estímulo quase supernormal fomos com a agricultura deixando-as cada vez mais doces.

E O QUE ISSO NOS ENSINA…

Inúmeros levantamentos NÃO-conclusivos mostram que populações que comem frutas seriam mais saudáveis. Porém, atenção: isso apenas é verdade em um número muito pequeno de frutas. Mais importante ainda é que os levantamentos mais conclusivos mostram que comer a mais não é melhor.

Mais. O Reino Unido é o país que mais prega aumentar o consumo de frutas. E é também senão o mais obeso da Europa. A solução dos especialistas? Comer ainda mais frutas. Faz sentido? Lógico que não.

O QUE FAZER?

Além de fugir de especialistas assim, seguir a lógica evolutiva ajuda. Eu como frutas, poucas, as de menor açúcar. Tenho o mesmo prazer que você, só por isso as como. Mas estou longe de achar que elas sejam essenciais ou sequer importantes. Como frutas na mesma frequência que como requeijão, por exemplo. Por quê? Porque fruta é tudo, menos “natural”.

*Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Nutricionista Clandestino! (você encontra a versão impressa aqui)

De Foie Gras, Terremotos, Sucos e Nutricionistas – Parte 2.

Um nutricionista que sugere suco de fruta como algo saudável ou seguro é amoral, inútil e antes de tudo um incompetente. É uma questão lógica, de risco. Mas é também uma questão de fisiologia.

Foie Gras é uma iguaria culinária feita com fígado de gansos. Para ela ser melhor, o fígado da ave tem que estar patologicamente gordo, doença essa que em humanos chamamos de Esteatose Hepática, um acúmulo de gordura nas células do fígado. Ela pode ser dividida em doença gordurosa alcoólica do fígado (quando há abuso de bebida alcoólica) ou doença gordurosa não-alcoólica do fígado, quando não existe histórico de ingestão de álcool significativa.

Como o próprio nome diz, ocorre por acúmulo de gordura no fígado. Você não tem dificuldade de encontrar ~especialista~ que diga que a primeira abordagem seria retirar/diminuir a ingestão de gordura na dieta. Não duvido que esse profissional ache que se você comer ervilha, você ficará verde.

O fígado tem algumas particularidades. É ele quem metaboliza “todo” o álcool que ingerimos (isso já é sabedoria popular). O que muita gente não sabe é ele também quem metaboliza “toda” a frutose que consumimos.

Como adoecemos os gansos os engordando? Dando uma quantidade estúpida de glicose na forma de milho forçadamente goela abaixo dos animais, com mangueiras, diretamente em seu estômago. Milho é um grão, tal qual arroz, um alimento rico em amido. O que é amido? Um polímero de glicose, ou seja, centenas de moléculas de glicose ligadas uma a uma que em sua boca e seu estômago viram… “pura” glicose. E atualmente sabemos que a esteatose hepática é muito comum em outras condições que não as relacionadas ao abuso da ingestão crônica de álcool (“doença gordurosa não alcoólica do fígado”).

O QUE OS GANSOS DOENTES NOS ENSINAM?

Suco de laranja, o mais consumido, tem em sua composição cerca de 28g a cada 250ml de suco. Uma lata de Coca-Cola (350ml) tem 37g. Vc pode dizer que um é industrializado o outro é natural. Duas observações: a Coca-Cola é feita com açúcar de milho, tão natural quanto uma laranja, em uma composição de aproximadamente 55% de frutose e 42% de glicose, composição mto parecida com o açúcar branco de mesa (50-50%). E o suco de laranja? Formado por frutose E glicose, tal qual… refrigerantes!

Lembra da história do fígado? É ele e só ele quem metaboliza a frutose que ingerimos. Só que ele tem um “teto” de armazenamento que é de cerca de 100-120g (*precisamos assumir que esse tanque não se esvazia completamente). O que ele faz com o excesso? O transforma no melhor jeito de depositar energia em nosso corpo: gordura.

Suco de laranja é a história do evento de cauda… em uma sentada eu consigo tomar 500ml (56g de açúcar), 1L… isso sem contar o que eu vou ingerir de glicose e frutose além do suco. Porém, suco e refrigerante são bebidas “universalizadas” apenas recentemente. Vamos olhar o histórico?

Um sinal indicativo do futuro sombrio que nos aguarda é saber que a presença dessa doença era praticamente desconhecida em crianças até 15 anos atrás. Agora estima-se que 1 em cada 10 delas tenha esteatose hepática (sempre do tipo não alcoólico). Mas se você olhar apenas aos garotos mexicanos e americanos obesos, essa chance passa a ser de 50%! Mais! Em 2001 de cada 100 transplantes de fígado nos EUA, um era em razão da doença. Em 2010 esse valor já estava em 10%.

O especialista em diabetes Gerald Reaven (Stanford University), por exemplo, diz que para induzir ratos a adquirir esse problema, basta aumentar a frutose da dieta. Como o açúcar frutose (de refrigerantes E sucos) é metabolizado no fígado, seu excesso geraria esse acúmulo adiposo no órgão.

Um estudo oferecendo 480ml de suco de uva por 3 meses causou resistência à insulina em mulheres, doença atrelada à doença do fígado (HOLLIS et al, 2009). Se seu nutricionista topar tomar o dobro disso (1L por 6 meses), aí ele pode usar o raciocínio torto dele para dizer que suco é uma bebida saudável e segura.

Será que ele topa? Ou ele vai usar um dos discursos mais estúpidos da Nutrição, o da “moderação e equilíbrio”?

*fruta pode dar o mesmo problema? Um copo de suco usa cerca de 3,5 laranjas. Você consegue beber 1, 2 copos. Eu nunca vi alguém comendo isso na minha frente. “É o Risco, estúpido”. 

*Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Nutricionista Clandestino! (você encontra a versão impressa aqui)

De Foie Gras, Terremotos, Sucos e Nutricionistas.

Antes de mais nada, para seguir lendo, é importante que saiba desde já o seguinte: Nutrição não é uma ciência.

Eu não sei exatamente o que ela é. Mas lhe é mais útil que sempre quando veja um Nutricionista, que você o enxergue como um religioso. E isso não é ruim! O religioso de certa forma quer o seu bem. O nutricionista convencional também é assim. E para tal ele frequentemente abre mão da ciência em nome da fé dele.

E – repito – não há problema nisso.

Sou à minha medida religioso. Poucas vezes me emocionei tanto diante de um túmulo, como me emocionei no Vaticano em frente ao do João Paulo II. Mas nem por isso acho que o Papa Francisco possa ser candidato a um Nobel que não seja o da Paz. Porque ele não defende a ciência, mas a fé católica. Ser religioso não faz de alguém moralmente melhor ou pior “per se”. Um nutricionista não é mau per se, mas pode fazer mal, muito mal, justamente por disfarçar em sua fala uma ciência que não existe.

Tempo atrás houve um debate sobre suco ser ou não saudável. Uma blogueira, mostrando sua falta de intimidade com fisiopatologia, teria dito que suco faz mal. Nutricionistas, mostrando sua falta de intimidade com conceitos básicos de lógica, disseram que não.

FAZ OU NÃO FAZ?

Um desavisado diria que água em excesso faz mal. Porém, quando falamos de consumo voluntário, ainda que não infalível, temos que talvez que o primeiro indicador lógico de que algo possa fazer mal (ou não fazer bem) é sobre seu consumo “ad libitum” (a bel-prazer, à vontade) implicar riscos consideráveis. Em nome de uma melhor (ou boa saúde) podemos comer bomba de chocolate ad libitum? Não. E comer brócolis ad libitum? Sim. Vodka ad libitum? Não. Água? Sim. Laranja? Sim. E Suco de laranja?? (*ou de qualquer outra fruta.)

Quando um nutricionista vem em um suposto compromisso com a ciência afirmar “me traga um estudo que mostre que suco faz mal”, ele recorre ao argumento de que um estudo querendo promover lesões ao fígado em crianças ou adultos seria possível. Não, não seria. Eu não posso eticamente querer acabar com o fígado ou engordar um grupo de pessoas.

Esse argumento falha ainda em outro ponto. Evidência de ausência (de danos) é diferente de ausência de evidências. Mais do que isso, as evidências (ainda que não 100% seguras, falarei outro dia) já nos mostram quem está errado no debate. Um profissional de saúde que fala que “não existem estudos” está querendo dizer que todos os cisnes são brancos, que há evidência de ausência. Quando a ÚNICA coisa CERTA a ser feita é buscar cisnes pretos para provar-se errado em um incansável exercício de ausência de evidências.

Ou então ele pode ainda fazer algo moralmente maior:

O quanto você realmente acredita em algo só pode se manifestar através do que você está disposto a arriscar por isso.”
OU AINDA
Faça o que você fala!

Um nutricionista que diz que “OK beber suco” o tomaria em quantidades absurdas? Digamos 2L por dia por 6 meses? E por que absurdas? Porque o risco à saúde de bebermos sucos está justamente em seu caráter de ser um evento de cauda. O que seria isso? Eventos de cauda não são mensurados na grande maioria das análises. Os eventos de cauda podem ser positivos ou negativos e são praticamente impossíveis de prever ou quantificar. Eles são a priori invisíveis, imprevisíveis, difíceis de mensurar e podem ser extremamente destrutivos.

Lembra do nutricionista argumentando a dupla falácia “não há estudos”?
Não há estudos sobre paraquedas. Ele saltaria sem um? Ele beberia 2L por 6 meses?

Suco faz mal (pronto, já sabe o que eu acho) por alguns fatores:
1. Ele não pode ser consumido ad libitum.
2. Sua capacidade de fazer estrago está em seu caráter de podermos consumir muitas calorias (açúcar) que NÃO é possível na forma de fruta.

Suco é o terremoto que mata muito. A fruta é o asteroide que pode matar alguém. As calorias (na forma de açúcar) do suco vêm com a magnitude de um terremoto enquanto as de uma fruta caem como asteroides.

Por fim, não esqueçamos nunca que como a Nutrição convencional ainda não é ciência, temos que partir para outras facetas ou mesmo filosofia para buscar explicações. Nutrição, tal qual religião, ainda é uma cultura de fé. A ciência é a da dúvida. Temos que ter medo das certezas quando quem discursa não corre o próprio risco. Ou então beba 2L de suco por dia antes.

Se você chegou até aqui, dentro de alguns dias explico fisiologicamente o porquê suco não deveria jamais ser consumido como outra coisa que não seja sobremesa (o momento que abrimos voluntariamente mão da saúde em nome do prazer).

O Nutricionista que te fala que “suco tudo bem” é amoral, não o faz por mal. E ele o é sem deixar de ser inútil (por não te proteger, dando conselhos baseados em raciocínio que qualquer um faria). Mas ele é antes de tudo um incompetente. 

*Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Nutricionista Clandestino! (você encontra a versão impressa aqui)

Sílvio Santos, Jejum e Nutrição.

É sintomático que dois memes de Nutrição tenham sido compartilhados na mesma semana. Já chego a eles.

No âmbito das relações humanas e profissionais, uma é defendida por quem detém via Estado o monopólio de um setor: o atendimento a quem quer emagrecer. Você nunca tem dificuldades para encontrar Nutricionista e Educador Físico dizendo que você deve ir a um deles caso queira cuidar da sua saúde e da dieta. Porém, há um aspecto crucial na área da saúde. É o que chamamos de Dissociação de Interesses. Um quer dinheiro, o outro quer saúde (*e NÃO há problema ALGUM nisso). Duvida? Eu poderia dar consultoria a alguém por 10 anos (como dou ao mesmo cliente há mais de 10 anos). Ele me paga mensalmente. Gratuitamente eu faria isso por talvez 10 semanas, não mais. Leve essa proposta ao profissional da saúde que lhe diz que a maior preocupação dele é com a sua saúde. Reforço: não há crime aqui!

Porém, no campo das ideias quem decide quem é e quem não é especialista é o TEMPO, não o Estado, não uma carteirinha de uma classe profissional que só serve para sugar o trabalho alheio sem precisar entregar NADA. Isso mesmo: CRN e qualquer outro “C” ganha dinheiro sem precisar fazer NADA. VOCÊ quem trabalha para sustentar vagabundo. *mas é divertido que você não tem nenhum trabalho para encontrar muita gente que ache normal. É até curioso que implicitamente fique aqui um reconhecimento de que essa pessoa não se sinta nem segura sem alguém o atestando que ele seja útil para algo.

Tempo atrás conheci o Efeito Lindy, que é uma das heurísticas mais robustas que existem. O efeito diz que a expectativa de vida de uma ideia é proporcional ao seu tempo de vida.


Aplicado aos tênis de corrida – prometo já chegar na Nutrição/Emagrecimento – os maiores atletas por bem mais da metade do século passado corriam com tênis sem suporte. Desde o final dos anos 70 a indústria tenta nos empurrar um novo conceito de tênis que não só não se mostra eficiente (como evidencia qualquer pesquisa preguiçosa que qualquer um pode fazer), como seus próprios tênis, de tão ruins que são como conceitos de calçados seguros, vão morrendo temporada após temporada.

Você pode enganar a todos, mas apenas não engana a duas entidades: a Lindy e ao Tempo.

Essa semana tem uma imagem rolando chamando Jejum de moda. Ele tem sido registrado como seguro por pelo menos milhares de anos. Outro sempre chamado de moda é o Low-Carb, só que eis que ele sempre foi a regra. Sempre. O Low-Fat é algo inventado SEM estudos apenas por volta dos anos 60 e 70.

Pois se vivemos uma época racional regida pela irracionalidade de falsos especialistas, talvez a ferramenta mais útil e mais segura seja recorrer justamente ao tempo! Jejum e Low-Carb sempre estiveram entre nós. Já a entrada das recomendações defendidas pelas associações de sempre, que só vivem e só querem seu dinheiro, ocorre justamente quando o planeta vive sua pior crise de obesidade e diabetes.

Assim chegamos ao grande Sílvio Santos. Ele não é profissional de Saúde, ele tem algo a perder: sua Saúde. O que ele mais quer é saúde. E ele tem o tempo ao seu lado: não há como uma dieta low-carb engordá-lo. Por mera sabedoria de observação (seja do tempo, seja do que está em volta dele), ele concluiu que a restrição de carboidrato refinado serve para emagrecer duas fãs obesas. Não sei a opinião de quem criou a imagem, mas sei que vc não terá dificuldade de ver gente que se acha inteligente, profissional de saúde, achando que ela está certa. Que há moda em algo de milhares de anos. Eles precisam ter aulas de raciocínio lógico com SS, que não sabe diferenciar mitocôndria de pâncreas, mas sabe que não tem como o delírio do Low-Fat contradizer milhares de anos.

É o tempo, estúpido.”

Danilo Balu
autor

*se você gostou da análise que leu aqui e quer saber coisas que nunca lhe disseram sobre Nutrição e Emagrecimento, o convido a ler meu livro O Nutricionista Clandestino (também na versão impressa aqui).

Precisamos falar de Jejum.

Venho do futuro, mais precisamente do ano de 2057 e lá você AINDA encontra profissional recomendando comer a cada 3 horas para perder peso. Duvida? Dias atrás foi matéria do jornal “O Globo”. As diretrizes nutricionais têm ineficiência de passado brilhante (sempre ineficazes), e de um futuro promissor, basta ver o caso do óleo de coco de dias atrás, com especialistas das sociedades de cardiologia endossando a barbeiragem. Ou ainda os atuais alunos da minha antiga faculdade (EEFE-USP), coitados, que têm toda uma equipe obstinada a perpetuar seus delírios.

Fosse eu a defender comer a cada 3 horas baseado na fé, como eles, pediria ao jornal para omitir completamente meu nome na matéria. Mas essa turma não tem medo de passar vergonha! Contam com apoio das diretrizes oficiais, ainda que a ciência olhe feio, muito feio para eles, quase com pena.

Na última pesagem de um cliente eu disse para ele que era hora de tentarmos fazer jejum (*aqui um adendo: as pessoas sempre que me encontram pela primeira vez acham que eu já vou de cara recomendar jejum, quando na verdade essa é a última abordagem em um programa). Por que sugeri isso? Como era de se esperar, a velocidade de perda de peso dele vinha reduzindo. Essa redução por si só joga por terra a tola e equivocada ideia do controle do peso como primordialmente uma consequência do balanço calórico.

Ritmo esse que caía, era hora então de uma nova quebra de homeostase. E a ideia era que fosse com jejum. Programamos em nosso último encontro de fazer de 12 e 18 horas de jejum algumas vezes por semana (mentira, tentei que fizesse jejum de 24 horas, sem sucesso). Ele fez e voilá… o ritmo de perda de peso dele voltou a aumentar.

Jejum não é sobre perder peso. É sobre saúde! Qualquer nutricionista ou nutrólogo acha normal e saudável você quebrar a homeostase de alguém estressando de forma controlada indo à academia empurrar um monte de peso por 45 minutos ou correndo 8km no parque. Mas muito desses acham um absurdo você estressar o corpo de modo controlado sem comer por 16 horas. Os mais fracos quando vão à academia ficam mais fortes. Os mais gordos quando fazem jejum – olhe que coisa inesperada – emagrecem. Nem por isso você quando está forte ou magro deveria parar de fazer os 2 (treinar e fazer jejum). A história de dezenas de milhares de anos diz que é seguro. Mas as diretrizes de 1970 para cá dizem que é perigoso.

Em quem você acredita?

Como eu sou teimoso, acho que as diretrizes que coincidem com a explosão de obesidade e de diabetes estão erradas do começo ao fim e que o que sempre foi feito e nunca nos adoeceu é o certo a se fazer.

Infelizmente não são poucas as diretrizes que não fazem nenhum sentido. No livro O Nutricionista Clandestino (você o encontra na versão impressa aqui) falo de como interpretamos completamente errado os estudos que tentavam explicar o controle de peso, como evitar diabetes ou o controle do nosso risco cardíaco. Faço o convite para que conheça alguns dos estudos ignorados na primeira obra sobre o tema escrita originalmente em português.