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Correndo e comendo com os Etíopes

*texto originalmente postado no Blog Recorrido sobre minha experiência treinando com os corredores etíopes.

Logo que cheguei à Etiópia, ainda no aeroporto, algumas coisas me chamaram a atenção. Uma delas era pessoas em forma, nada de obesos, saudavelmente magros. Além disso, não havia restaurantes fast food no local. Soube ainda depois que o Mc Donald´s não desembarcou no país. Quando fiz uma associação dessa ausência com o baixo índice de obesidade, um desses comentaristas que escrevem em 4 apoios disse:

“Energúmeno, qual a renda média? Os caras não comem, não comem nem calorias nem proteínas. São magros por desnutrição.”

Pois o mais legal de jogar com números, algo que eu adoro, é você poder colocar em teste alguns dos conceitos que temos bem arraigados. Um deles é antigo e não sobrevive nem a uma pesquisa preguiçosa. Por exemplo, quando cruzamos a lista de dados dos países organizados pelo ranking de IMC (um índice comparativo este que é pouco confiável quando olhado individualmente, mas que ajuda demais quando trabalhamos com populações heterogêneas) é que colocado lado a lado com o ranking de ingestão calórica você observa que não há um padrão claro. Ou seja, que consumir mais calorias não tem uma correlação positiva com mais obesidade. Ou ainda nas palavras de Nate Silver em sua obra mais famosa, O Sinal e o Ruído: “parece haver indícios restritos para uma associação entre obesidade e consumo calórico; pelos testes padrões, tal relação não seria qualificada como “estatisticamente significativa“.

O que isto quer dizer? Que a magreza etíope não se explica somente pelo baixo consumo calórico (o que é um fato), uma vez que há países que comem menos calorias e têm IMC maior e países bem obesos que consomem menos calorias que outros países magros.

Seria o baixo consumo proteico etíope, então? Hoje há uma espécie de cruzada entre os que acreditam na nunca testada e provada tese da gordura (ou das calorias) como engordativa quando é o carboidrato quem impacta o metabolismo de gordura. Como muita gente que se diz especialista no assunto não aceita quebra de paradigmas, abrem mão até de um dos nutrientes pouco lembrados na questão, a proteína. E, novamente, está acessível para quem gosta do tema: quando colocamos prevalência de obesidade com consumo proteico, voilà, aparecem paradoxos. Paradoxo nada mais é que um jeito chique de você não aceitar algo que vai contra sua teoria. Apesar do baixo IMC da Etiópia, você encontra vários países que consomem muito menos proteína que esses africanos.

Uma passagem muito bem descrita de uma pesquisa americana relatada em “Por que Engordamos“, livro ignorado por quem finge estudar o assunto, fala do trabalho de um pesquisador que ficava perplexo de como havia crianças desnutridas sendo carregadas por mães brasileiras claramente obesas que TAMBÉM não tinham muito o que comer nas favelas.

Obesidade (ou magreza) não se explica por quantas calorias comemos, que é o que diz esses rankings da ONU, mas QUAIS comemos. As mães faveladas brasileiras da pesquisa comiam pouco, mas consumiam muito açúcar. Suas crianças, comiam poucas calorias, pouca proteína e também pouco açúcar.

Cada um acredita no que quiser, até que controle de peso é sobre calorias, não sobre O QUE se come. Porém, para isso deverá ser feito um malabarismo lógico e argumentativo uma vez que dietas hipocalóricas têm um rico histórico de ineficiência.

Propositadamente, ignorei aqui o argumento da questão da (baixa) renda, até porque dentro da mesma sociedade desde sempre é sabido que os mais ricos são mais… magros! Desconsiderados os bolsões de miséria, renda não deveria ser questão central nesse debate.

Pelo que pude ver em minha experiência em Adis Abeba, os corredores sabem de duas coisas que deveriam ser sempre bem lógicas: comer de modo saudável é o mínimo que você deveria fazer se deseja correr bem. Mais: corrida é sobre coRRer, não sobre comer. Não há debate sobre o que comer ou beber. Não havia suplementos, não há BCAA, não havia gel nem isotônico! Isso é coisa de atleta que corre de menos e de nutricionista que sabe de menos. Após nossas sessões de treino, quem tinha mais fome comia alguma banana, bebia algo e era isso! Os que estavam se sentindo bem, iam embora sem a tarefa de comer na “janela de oportunidade”, falácia essa que deveria já ter morrido na década passada, mas que ainda sobrevive entre alguns “especialistas”.

Enfim, corrida é o esporte mais simples que existe. Para correr bem você precisa rodar muito (volume), estar magro (em forma) e ter paciência. Os etíopes fazem tudo isso. Eles comem de modo saudável que os deixa magros. Quem quer achar algum atalho que não existe cai no golpe da dieta personalizada, equilibrada, BCAA, Glutamina, etc. Não aprendem nunca.

*durante meu período lá, não vi nem comi açúcar branco (refinado), no máximo vi o do tipo cristal. Não vi fast food, não vi sorvete, não lembro de ter visto muito chocolate. Apesar da fama ofensiva a eles de que passam fome, vi mais banana, laranja, tomates, avocados e iogurtes do que já vi no Brasil. É difícil você engordar quando você não consome justamente aquilo que te faz engordar: açúcar e alimentos processados e/ou ricos em amido.

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Glúten faz mal? Ou ainda: fuja do Nutricionista que diz que não!

Um princípio que meus clientes sabem que eu sigo é que eu não lhes digo o que eles devem comer, eu digo é que eles NÃO podem ou NÃO deveriam comer. Pode parecer a mesma coisa, mas os conceitos são bem distintos. Por uma questão evolutiva, de risco, naturalista, estamos há milênios consumindo de forma segura alguns alimentos. Carne, sal, ovos, folhas, legumes. Não há como isso fazer mal. Já soja, folhas de bananeira, tabaco e cogumelos selvagens você deve consumir sempre assumindo os próprios riscos.

Já falei aqui outras vezes, o melhor tipo de raciocínio é aquele que diz que o conhecimento é subtrativo, você vai aprendendo o que NÃO pode fazer, você acaba descobrindo aquilo que é falso. E o tempo é um grande, senão o melhor aliado.

Governos não deveriam JAMAIS ter diretrizes nutricionais por 2 motivos. Primeiro porque não sabem aquilo que nos faz bem e segundo porque quando erram, erram feio e não assumem seus equívocos. Governos NÃO voltam atrás na mesma intensidade em suas recomendações. Até hoje temos profissionais de saúde, alguns formados com dinheiro público, defendendo as teorias completamente falhas dos anos 50 e 60 (low-fat, déficit calórico e a teoria do colesterol e risco cardíaco) que mataram MUITO mais do que seriam capazes de salvar.

Mês passado fomos surpreendidos com mais uma nota, dessa vez da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), que só um veículo patrocinado ou ignorante no assunto “risco” pode nos dar. O glúten seria assim seguro e fundamental, uma dieta com restrição dele não é bem-vinda. A ABRAN é só um sintoma, qualquer outro veículo dessa qualidade já escreveu algo a respeito sempre “em favor” do glúten. Ele e TODAS as outras nos reforçam de tempos em tempos que você além de ignorar diretrizes nutricionais oficiais, deveria ignorar sempre QUALQUER entidade ou associação de Saúde que se mostra financeiramente não-independente.

Cortar ou reduzir o consumo de glúten é o que TODO profissional de saúde DEVERIA recomendar porque isso é algo completamente seguro ao ser humano. Nós NÃO temos necessidade de consumir tal nutriente. É uma questão de risco! Para ser mais exato, gerenciamento de risco naturalista porque a remoção de algo não-natural, não-essencial (no caso, o glúten em nossa dieta) não pode provocar efeitos colaterais a longo prazo.

Repare que o posicionamento do qual falo veio sem assinatura de um especialista, mas que seria resultado de uma decisão científica, pois sabe que o leigo está contaminado pelo cientificismo, já que qualquer porcaria dita por um especialista ganha importância, ainda que ele seja completamente ignorante em risco, mas acha que sabe dizer o que é ou não seguro. Mas não sem antes se esconder no anonimato.

Glúten não é seguro. PONTO. Isso é premissa básica. Você consome SE você quiser.

O que você também já sabe agora é que o Nutricionista ou Médico que disser “pode comer glúten” se não sabe sequer o que pode lhe fazer mal, não é a melhor opção para dizer o que pode lhe fazer bem.

*se você não é um assíduo usuário do Facebook, pode receber nossos textos por e-mail. Basta cadastrá-lo em: oclandestino.com.br/nutricionista.

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Gorduras Boas e pensamento libertador.

No dia a dia eu tenho várias heurísticas, aqueles atalhos mentais que servem para facilitar nossa vida. Quando o assunto é Nutrição tenho várias delas. Por exemplo, se um profissional de saúde diz que Quinoa e Feijão são fontes proteicas, já o coloco na gaveta dos vegetarianos, herbívoros ou dos low-fat, daqueles que morrem de medo de gordura na dieta. Se o profissional diz que quinoa e feijão são é fonte de carboidrato (e são mesmo, basta olhar suas composições), já sei que deve ser de uma linha mais low-carb.

Outra heurística minha diz respeito ao entendimento da pessoa sobre Gorduras. Repare, não deve haver UM veículo ou profissional realmente competente que para citar exemplos de “gorduras boas” não diga nada muito além do “abacate, nozes e azeite” (faça esse exercício no Google, chega a ser divertido a ponto de dar risada tamanha a limitação dos especialistas). Isso se chama bloqueio mental. Por mais que esse profissional tente aprender, se atualizar, quebrar conceitos e ideias equivocadas, ele fica preso a conceitos ultrapassados, arraigados há muito em sua mente.

Um desses conceitos é o de que haja “gorduras boas”. Isso não existe! Na natureza se nos alimentamos naturalmente de um alimento há milhares de gerações, esta gordura é por si só segura, ela não é ruim, o que é diferente de ser boa. Do contrário, se ela é sintética (como a gordura trans ou os óleos vegetais industrializados como o de Canola, de Girassol, de Soja, de Milho, etc.) esta é uma gordura RUIM ou no mínimo NÃO-segura.

Quem defende o contrário tem que fazer um contorcionismo argumentativo que não sobrevive à lógica (ou que nos entrega à ignorância deste profissional no assunto), afinal, abacate e azeite não têm composições lipídicas radicalmente diferentes das da… CARNE.

RECOMENDAR PEIXE É ANTES DE TUDO SER INÚTIL

Gordura boa é gordura segura!

Você dificilmente encontrará nos exemplos de “gorduras boas” a CARNE. E aqui NÃO vale citar PEIXE. Por que não?

O que diferencia um profissional de um leigo é entre outras coisas que aquele consiga oferecer a este algo, uma informação, que o leigo não saiba da área de atuação. Uma vez que não deve haver estudos sobre peixes que tenham desfechos negativos com o consumo desse alimento, ou seja, consumir mais peixe sempre está relacionado a uma melhor saúde, o Nutricionista (ou Médico) vir dizer para comer peixe é tão dispensável ou tão inútil quanto o Educador Físico vir dizer que fazer exercício é bom, ou o Médico vir dizer que fumar faz mal, ou o homem do tempo na TV dizer que a chuva molha. Sem agregar informação, o nutricionista que cita peixe é entre outras coisas um inútil, ele é dispensável.

Útil é o profissional que vem a você e fala: coma carne, sua gordura é segura e não faz mal.

A CARNE PODE SER LIBERTADORA

Escrevi tudo isso porque mesmo perfis de Instagram que soam como esclarecidos (como o Jejum Intermitente, por exemplo) são incapazes de citar a carne como “boa”. Citam o queijo e o azeite, alimentos feitos pelo homem. É um misto que mora entre a ingenuidade e a arrogância tão humana de achar que podemos superar e melhorar a natureza. Limitar as gorduras boas a peixe, abacate, azeite e castanhas é sinal claro de quem desconhece a composição desses alimentos e a da carne. Ou lhes falta discernimento ou entendimento técnico.

Aos nutricionistas que falam essas bobagens (que carne não é uma grande fonte de gordura essencial), fica meu desafio Skin in the Game: eu fico sem comer abacate, azeite e castanhas. Vocês ficam sem a carne. Vejamos quem perde mais.

Fica aqui o recado, se você segue profissionais dispensáveis, que não conseguem saber aquilo que você já sabe (peixe e abacate, uma fruta de baixo açúcar, são saudáveis), e que não conseguem sair do bloqueio mental de que carne também seja fonte segura de gordura uma gordura essencial, talvez seja hora de trocar de profissional, pois este é mais do que dispensável.

*mas se seu médico ou nutricionista recomenda preferência por óleo de Canola, Deus tenha piedade de você

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Dia do Lixo: pode ou não?

Em apenas uma semana falando com uns 3 clientes recebi exatamente o mesmo retorno: “Balu, minha perda de peso estacionou”. Ignoremos por enquanto que nosso peso é tudo, menos linear, que tal qual nossa temperatura varia ao longo do dia (mesmo sem esporte nem tomar banho de sol), que nosso peso está longe de ser uma coisa fixa. Minha primeira reação foi ficar um pouco chateado. Comigo mesmo. Como não quero terceirizar a culpa, prefiro acreditar sempre primeiro que o problema foi a minha intervenção.

Deve haver alguma coisa errada no que EU orientei a fazer… Então pedi: “Me mande absolutamente TUDO o que vc fez e/ou comeu”.

Nesse meio tempo batia papo com outro cliente, que virou amigo. Ele vinha perdendo peso, consistente, bonito de ver… uma vez por ano todos nós fazemos aniversário. Ele foi celebrar o dele. Em menos de 4 dias ele ganhou 4kg.

4kg.
Em 4 dias.

Se eu convencesse você que tenho a fórmula para emagrecer 4kg em 4 dias, além de estar mentindo, eu ficaria rico. Pois, então. A capacidade que temos de fazer bobagem à mesa é enorme. Lembre-se daquele rodízio de pizza que você foi tempo atrás, aquela ida ao Outback, aquele churrasco “do mal”… Lembrou? Agora multiplique isso por 3 ou 4 vezes em um período de 16 horas. Esse é o tamanho do Dia do Lixo.

O nosso peso é muito resultado da nossa regra, não de nossa exceção. 1 dia a cada 6 não é exceção, é regra!

Sabe… eu tive sorte que essa pessoa se pesou depois das comemorações de aniversário. Não serviu pra mim… serviu para que ELE soubesse o peso das escolhas.

Aí voltamos aos mesmos que me disseram que “estacionaram”… Quando começaram a me passar aquilo que comeram, 100%, sem nenhuma omissão você descobre que tem uma barra de proteína com 5g de açúcar (que só você e seu nutricionista podem achar saudável) aqui, um chá de latinha com tanto açúcar quato qualquer refrigerante ali, uma pizza inocente no happy hour do trabalho, só um pão de batata no dia que saiu tarde de casa… é quase como deixar de fumar, só que dando “só” uns 2 tragos por dia. Não dá pra saber os efeitos do abandono quando não há abandono.

Não há fórmula que funcione 100%. Mas há fórmula que funcione praticamente 100% para engordar. E quem engorda, obviamente não emagrece. Achar que a cada 6 dias você tem um para fazer o dia do lixo é de um otimismo que eu não consigo compartilhar…

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De chocolate, leite achocolatado e pós-treino.

Tempo atrás falei rapidamente como em questão de 10 anos fabricantes de chocolate convenceram centenas de veículos, uma infinidade de profissionais de saúde e milhões de consumidores a achar que comer chocolate 70% é saudável (resumo: não, não é nada saudável). Tenhamos sempre em mente algo que funciona na vida que também SEMPRE funciona na Nutrição: nada nunca é de graça.

Em 2015 houve um episódio que mostrou a fragilidade e a baixa confiabilidade das recomendações nutricionais quando feitas em veículos impressos, TVs ou portais. Para demonstrar esse ponto, o jornalista John Bohannon divulgou propositadamente um estudo falso que dizia que “chocolate acelera o emagrecimento”. Sua Fake News foi publicada em TVs, revistas, em mais de 20 países, em mais de uma dúzia de idiomas, no maior jornal europeu e em outros diários internacionalmente famosos.

Então se chocolate não emagrece (e não é saudável)… POR QUE HÁ QUEM ACHE ACHOCOLATADO UM BOM LANCHE??

Bem antes da pegadinha de Bohannon, ainda em 2006 uma orquestragem da indústria nos enganou de outra forma. Fomos levados a acreditar que leite achocolatado (iguais aqueles que vêm em caixinha com canudinho) seriam bom repositores pós-treino. Um estudo (JOHNSTON et al) propositadamente mal desenhado foi financiado pela “Dairy and Nutrition Council” de um jeito a dar a entender que beber uma ou duas caixinhas após treinar forte era a melhor e mais barata alternativa de reposição alimentar. O resultado? Não deve haver UM veículo que cubra corrida que não tenha sugerido achocolatado como boa alternativa. Mas…

ELE NÃO É BOM. E EXPLICO OS MOTIVOS.

Tal qual isotônicos, achocolatados contêm água e energia. Mas contêm além disso proteína, cálcio e vitamina D. Porém, nutricionalmente falando, achocolatado é basicamente açúcar líquido disfarçado. MUITO açúcar. MAIS do que refrigerante.

Deixemos de lado a questão se leite pasteurizado é bom ou não (é ruim, mas fica para outra oportunidade). Esqueça que achocolatado engorda ou sabota sua dieta. Ignore que ele é feito basicamente com ingredientes artificiais ou que ele rouba o lugar de alimentos de verdade que você deveria estar consumindo. O que podemos com segurança afirmar é que achocolatado como lanche ou opção é UMA DAS PIORES alternativas que alguém pode escolher após o treino. Dizer que é melhor que isotônico não só não é verdade (o estudo não chegou a esse veredito) como não deixa de ser uma comparação esdrúxula, afinal, compara dois lixos nutricionais. Não deve haver profissional de saúde minimamente competente que sugira isotônico que não seja apenas DURANTE a corrida (ou qualquer outra atividade).

A estratégia de marketing feita com o chocolate 70% e com o achocolatado nos reforça de 2 pontos: um é que assim como qualquer outro doce, esses 2 produtos devem ser encarados como sobremesa, doce, indulgência. O segundo e mais importante é que quem mais se beneficia de chocolate 70% como saudável ou de achocolatado como pós-treino é a indústria que vende, não você que compra ou consome.

*Prefiro não entrar na questão de mães que colocam achocolatado na lancheira de seus filhos

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No meio do caminho havia uma pedra. Mas segundo a especialista era integral, então OK!

Tempo atrás eu vinha sentado em um ônibus e à minha frente havia duas mulheres. Uma bem gordinha, mal cabia no assento. Sua amiga era magra. No meio do trajeto a gordinha abre uma lancheira térmica, puxa um entre 3 tupperwares e tira um garfo plástico para comer frutas.

Apesar do enorme sobrepeso, ela tinha uma missão que o inconveniente de ser em um ônibus, ainda que vazio, não podia ser postergada: dar umas garfadas para comer alguns pedaços de frutas. Essa garota não tinha fome. O tamanho dela me faz ter certeza que se tivesse, ela teria que comer mais, comida na lancheira não faltava. Aquilo era uma tarefa, claramente instruída por um especialista.

É irônico que ano passado o Nobel vá para um defensor do jejum e o deste ano a um que estude o ciclo circadiano (relógio biológico). É tudo muito lógico que dentre as duas que vinham à minha frente, a com grande sobrepeso fosse a instruída a comer melhor e menos vezes. Mas na lógica da nutrição essa mulher tem que comer mais vezes! Faz sentido?

NENHUM, eu sei! Você não precisa me responder! Os americanos quando passaram a comer mais vezes viram explodir os índices de obesidade. As diretrizes estão erradas? Dirão que não, dirão que eles não comeram melhor. A culpa é sempre de quem tomaria o remédio de forma errada, não de quem prescreveu um remédio nunca testado.

Saí de lá com a certeza que aquela mulher vai continuar mal cabendo no banco do transporte público ainda que ela faça tudo o que o especialista mande. É bem triste. É desesperador.

*a magra não comeu um pedaço de fruta sequer. Coincidência? 
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Frutas são tão naturais quanto um requeijão. OU AINDA: o sabor doce não é natural.

Frutas são saudáveis? Sem dúvida!
São alimentos “bons”? Eu não iria tão longe.

Quando falamos em Emagrecimento ou de “Saúde”, podemos falar com certa segurança que existem os alimentos que atrapalham e os que não fazem nada. Nem mesmo carnes ou verduras (folhas & legumes) são essenciais. Porém, fazem nossa vida muito mais fácil quando queremos ter Saúde. As frutas nem sequer entram nesse grupo.

As frutas ao longo de nossa história evolutiva nunca foram tão doces como são hoje. Frutas como conhecemos hoje são puro resultado da agricultura, de sucessivos cruzamentos que resultaram em aumentos progressivos de tamanho e, mais importante, do sabor doce, da doçura (maior concentração de Frutose e redução da quantidade total das fibras). Lição para a vida:  a Dissociação de Interesse… o feirante e o agricultor querem te vender frutas, não aumentar sua expectativa de vida.

Melancias em pintura antiga…

Porém, o sabor doce é viciante. Fomos programados por milhares de anos a ter uma atração supernormal por ele. Não é mera coincidência que mousse de chocolate gere mais prazer e atração que um rabanete.

Costumo dizer aos clientes que atendo que hoje alguém no interior do Maranhão pode comer 2 ou 3 kiwis por dia, fruta do sudeste asiático. O primeiro kiwi que eu vi foi na adolescência. A maior manga que vi no pé que havia na casa da minha avó é menor do que a menor manga dos supermercados. Uma manga não é uma fruta. É um produto que equivale a pelo menos 2.5x do que era uma fruta de apenas 20 anos atrás.

As frutas, e isso é fascinante, na antiguidade não eram doces. Em um estímulo quase supernormal fomos com a agricultura deixando-as cada vez mais doces.

E O QUE ISSO NOS ENSINA…

Inúmeros levantamentos NÃO-conclusivos mostram que populações que comem frutas seriam mais saudáveis. Porém, atenção: isso apenas é verdade em um número muito pequeno de frutas. Mais importante ainda é que os levantamentos mais conclusivos mostram que comer a mais não é melhor.

Mais. O Reino Unido é o país que mais prega aumentar o consumo de frutas. E é também senão o mais obeso da Europa. A solução dos especialistas? Comer ainda mais frutas. Faz sentido? Lógico que não.

O QUE FAZER?

Além de fugir de especialistas assim, seguir a lógica evolutiva ajuda. Eu como frutas, poucas, as de menor açúcar. Tenho o mesmo prazer que você, só por isso as como. Mas estou longe de achar que elas sejam essenciais ou sequer importantes. Como frutas na mesma frequência que como requeijão, por exemplo. Por quê? Porque fruta é tudo, menos “natural”.

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O que NUNCA te contaram sobre Ácido Úrico

Gota acomete 6% dos homens adultos americanos. Mas olhe que interessante: sua incidência dobrou entre os anos 60 e 90! Você acha que o consumo proteico (carnes, por exemplo) aumentou nesse período por lá? Não. Sabe qual nutriente “coincidentemente” aumentou nesse tempo? Açúcares.

O mecanismo da Gota foi descoberto na metade do século 19 por um médico britânico que percebeu que havia acúmulo de ácido úrico no sangue desses doentes. O ácido acumulado se cristaliza e faz pequenos cristais pontudos que inflamam o local, incham as extremidades (dedão o exemplo mais comum) e… AI! Dor!

O ácido úrico é resultado da quebra de um subproduto proteico chamado “purina”. Onde há MUITA purina? Na carne. Hmmm Solução? Cortar o consumo de carne, certo? Calma… vamos ver?

O que acontece quando a pessoa vira vegetariana (e ela passa a comer mais carboidrato, mas vamos deixar isso para depois)? Ela melhora? Não. Uma dieta sem purina não é efetiva (FOX, 1984). Se uma com ZERO carne não funciona, por que uma com menos/pouco funcionaria?

Olhe que interessante… a gota em vegetarianos é em incidência ACIMA do que se espera. Na Índia, o país mais vegetariano do mundo, por exemplo, a incidência é de 7% (americanos adultos 6%). Agora vem a parte interessante… quando analisadas populações primitivas em diversas partes da África ou mesmo na Nova Zelândia, a incidência era de menos de 1 em 1.000 em casos. Mas a partir de 1970, com a industrialização de alguns desses povos, a incidência aumentou (junto com a obesidade, hipertensão, problemas no coração…).

Entre 1960 e 1990 uma série de estudos começou a relacionar a concentração do ácido não com consumo de carne, mas com outra coisa, de nome difícil: hiperinsulinemia. Traduzindo: elevação dos níveis de insulina na pessoa (fora das refeições). E a gente já sabe bem o que faz alguém ter elevação da insulina: consumo de açúcar, farináceos, amido (integral ou não).

A hiperinsulinemia “se resolve” com: muito exercício, jejum intermitente e dieta de BAIXO carboidrato. E quando a pessoa não come carne (ou a evita) ela passa necessariamente a comer mais carboidrato, o que eleva mais a insulina. É um ciclo sem fim.

Por fim, se há 2 nutrientes que alguém com gota ou alto ácido úrico deveria evitar seriam:

1. Álcool;
2. Frutose. Onde há muita frutose (em quantidade)? Açúcar de mesa, refrigerantes, sucos de fruta (natural ou não), xarope de milho (que adoça os alimentos industrializados) e doces.

E observemos outra “coincidência”: o xarope de milho que adoça praticamente todos os alimentos industrializados, foi inventado na década de 70, quando dobrou o número de incidência de gota. E o açúcar de mesa refinado explodiu também na segunda metade do século passado…

E aí? A gota explodiu, o consumo de açúcar também e o homem comia carne há milhares de anos sem sofrer gota. Quem você acha que é o culpado? Seu médico tem um palpite, o problema é que a lógica tem outro…

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De Foie Gras, Terremotos, Sucos e Nutricionistas – Parte 2.

Um nutricionista que sugere suco de fruta como algo saudável ou seguro é amoral, inútil e antes de tudo um incompetente. É uma questão lógica, de risco. Mas é também uma questão de fisiologia.

Foie Gras é uma iguaria culinária feita com fígado de gansos. Para ela ser melhor, o fígado da ave tem que estar patologicamente gordo, doença essa que em humanos chamamos de Esteatose Hepática, um acúmulo de gordura nas células do fígado. Ela pode ser dividida em doença gordurosa alcoólica do fígado (quando há abuso de bebida alcoólica) ou doença gordurosa não-alcoólica do fígado, quando não existe histórico de ingestão de álcool significativa.

Como o próprio nome diz, ocorre por acúmulo de gordura no fígado. Você não tem dificuldade de encontrar ~especialista~ que diga que a primeira abordagem seria retirar/diminuir a ingestão de gordura na dieta. Não duvido que esse profissional ache que se você comer ervilha, você ficará verde.

O fígado tem algumas particularidades. É ele quem metaboliza “todo” o álcool que ingerimos (isso já é sabedoria popular). O que muita gente não sabe é ele também quem metaboliza “toda” a frutose que consumimos.

Como adoecemos os gansos os engordando? Dando uma quantidade estúpida de glicose na forma de milho forçadamente goela abaixo dos animais, com mangueiras, diretamente em seu estômago. Milho é um grão, tal qual arroz, um alimento rico em amido. O que é amido? Um polímero de glicose, ou seja, centenas de moléculas de glicose ligadas uma a uma que em sua boca e seu estômago viram… “pura” glicose. E atualmente sabemos que a esteatose hepática é muito comum em outras condições que não as relacionadas ao abuso da ingestão crônica de álcool (“doença gordurosa não alcoólica do fígado”).

O QUE OS GANSOS DOENTES NOS ENSINAM?

Suco de laranja, o mais consumido, tem em sua composição cerca de 28g a cada 250ml de suco. Uma lata de Coca-Cola (350ml) tem 37g. Vc pode dizer que um é industrializado o outro é natural. Duas observações: a Coca-Cola é feita com açúcar de milho, tão natural quanto uma laranja, em uma composição de aproximadamente 55% de frutose e 42% de glicose, composição mto parecida com o açúcar branco de mesa (50-50%). E o suco de laranja? Formado por frutose E glicose, tal qual… refrigerantes!

Lembra da história do fígado? É ele e só ele quem metaboliza a frutose que ingerimos. Só que ele tem um “teto” de armazenamento que é de cerca de 100-120g (*precisamos assumir que esse tanque não se esvazia completamente). O que ele faz com o excesso? O transforma no melhor jeito de depositar energia em nosso corpo: gordura.

Suco de laranja é a história do evento de cauda… em uma sentada eu consigo tomar 500ml (56g de açúcar), 1L… isso sem contar o que eu vou ingerir de glicose e frutose além do suco. Porém, suco e refrigerante são bebidas “universalizadas” apenas recentemente. Vamos olhar o histórico?

Um sinal indicativo do futuro sombrio que nos aguarda é saber que a presença dessa doença era praticamente desconhecida em crianças até 15 anos atrás. Agora estima-se que 1 em cada 10 delas tenha esteatose hepática (sempre do tipo não alcoólico). Mas se você olhar apenas aos garotos mexicanos e americanos obesos, essa chance passa a ser de 50%! Mais! Em 2001 de cada 100 transplantes de fígado nos EUA, um era em razão da doença. Em 2010 esse valor já estava em 10%.

O especialista em diabetes Gerald Reaven (Stanford University), por exemplo, diz que para induzir ratos a adquirir esse problema, basta aumentar a frutose da dieta. Como o açúcar frutose (de refrigerantes E sucos) é metabolizado no fígado, seu excesso geraria esse acúmulo adiposo no órgão.

Um estudo oferecendo 480ml de suco de uva por 3 meses causou resistência à insulina em mulheres, doença atrelada à doença do fígado (HOLLIS et al, 2009). Se seu nutricionista topar tomar o dobro disso (1L por 6 meses), aí ele pode usar o raciocínio torto dele para dizer que suco é uma bebida saudável e segura.

Será que ele topa? Ou ele vai usar um dos discursos mais estúpidos da Nutrição, o da “moderação e equilíbrio”?

*fruta pode dar o mesmo problema? Um copo de suco usa cerca de 3,5 laranjas. Você consegue beber 1, 2 copos. Eu nunca vi alguém comendo isso na minha frente. “É o Risco, estúpido”. 

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De Foie Gras, Terremotos, Sucos e Nutricionistas.

Antes de mais nada, para seguir lendo, é importante que saiba desde já o seguinte: Nutrição não é uma ciência.

Eu não sei exatamente o que ela é. Mas lhe é mais útil que sempre quando veja um Nutricionista, que você o enxergue como um religioso. E isso não é ruim! O religioso de certa forma quer o seu bem. O nutricionista convencional também é assim. E para tal ele frequentemente abre mão da ciência em nome da fé dele.

E – repito – não há problema nisso.

Sou à minha medida religioso. Poucas vezes me emocionei tanto diante de um túmulo, como me emocionei no Vaticano em frente ao do João Paulo II. Mas nem por isso acho que o Papa Francisco possa ser candidato a um Nobel que não seja o da Paz. Porque ele não defende a ciência, mas a fé católica. Ser religioso não faz de alguém moralmente melhor ou pior “per se”. Um nutricionista não é mau per se, mas pode fazer mal, muito mal, justamente por disfarçar em sua fala uma ciência que não existe.

Tempo atrás houve um debate sobre suco ser ou não saudável. Uma blogueira, mostrando sua falta de intimidade com fisiopatologia, teria dito que suco faz mal. Nutricionistas, mostrando sua falta de intimidade com conceitos básicos de lógica, disseram que não.

FAZ OU NÃO FAZ?

Um desavisado diria que água em excesso faz mal. Porém, quando falamos de consumo voluntário, ainda que não infalível, temos que talvez que o primeiro indicador lógico de que algo possa fazer mal (ou não fazer bem) é sobre seu consumo “ad libitum” (a bel-prazer, à vontade) implicar riscos consideráveis. Em nome de uma melhor (ou boa saúde) podemos comer bomba de chocolate ad libitum? Não. E comer brócolis ad libitum? Sim. Vodka ad libitum? Não. Água? Sim. Laranja? Sim. E Suco de laranja?? (*ou de qualquer outra fruta.)

Quando um nutricionista vem em um suposto compromisso com a ciência afirmar “me traga um estudo que mostre que suco faz mal”, ele recorre ao argumento de que um estudo querendo promover lesões ao fígado em crianças ou adultos seria possível. Não, não seria. Eu não posso eticamente querer acabar com o fígado ou engordar um grupo de pessoas.

Esse argumento falha ainda em outro ponto. Evidência de ausência (de danos) é diferente de ausência de evidências. Mais do que isso, as evidências (ainda que não 100% seguras, falarei outro dia) já nos mostram quem está errado no debate. Um profissional de saúde que fala que “não existem estudos” está querendo dizer que todos os cisnes são brancos, que há evidência de ausência. Quando a ÚNICA coisa CERTA a ser feita é buscar cisnes pretos para provar-se errado em um incansável exercício de ausência de evidências.

Ou então ele pode ainda fazer algo moralmente maior:

O quanto você realmente acredita em algo só pode se manifestar através do que você está disposto a arriscar por isso.”
OU AINDA
Faça o que você fala!

Um nutricionista que diz que “OK beber suco” o tomaria em quantidades absurdas? Digamos 2L por dia por 6 meses? E por que absurdas? Porque o risco à saúde de bebermos sucos está justamente em seu caráter de ser um evento de cauda. O que seria isso? Eventos de cauda não são mensurados na grande maioria das análises. Os eventos de cauda podem ser positivos ou negativos e são praticamente impossíveis de prever ou quantificar. Eles são a priori invisíveis, imprevisíveis, difíceis de mensurar e podem ser extremamente destrutivos.

Lembra do nutricionista argumentando a dupla falácia “não há estudos”?
Não há estudos sobre paraquedas. Ele saltaria sem um? Ele beberia 2L por 6 meses?

Suco faz mal (pronto, já sabe o que eu acho) por alguns fatores:
1. Ele não pode ser consumido ad libitum.
2. Sua capacidade de fazer estrago está em seu caráter de podermos consumir muitas calorias (açúcar) que NÃO é possível na forma de fruta.

Suco é o terremoto que mata muito. A fruta é o asteroide que pode matar alguém. As calorias (na forma de açúcar) do suco vêm com a magnitude de um terremoto enquanto as de uma fruta caem como asteroides.

Por fim, não esqueçamos nunca que como a Nutrição convencional ainda não é ciência, temos que partir para outras facetas ou mesmo filosofia para buscar explicações. Nutrição, tal qual religião, ainda é uma cultura de fé. A ciência é a da dúvida. Temos que ter medo das certezas quando quem discursa não corre o próprio risco. Ou então beba 2L de suco por dia antes.

Se você chegou até aqui, dentro de alguns dias explico fisiologicamente o porquê suco não deveria jamais ser consumido como outra coisa que não seja sobremesa (o momento que abrimos voluntariamente mão da saúde em nome do prazer).

O Nutricionista que te fala que “suco tudo bem” é amoral, não o faz por mal. E ele o é sem deixar de ser inútil (por não te proteger, dando conselhos baseados em raciocínio que qualquer um faria). Mas ele é antes de tudo um incompetente. 

*Se você gostou do que leu aqui, estou certo de que vai gostar do que vai encontrar de surpreendente no e-book O Nutricionista Clandestino! (você encontra a versão impressa aqui)