O mito do “carne demais pra um cão”…

Veja o que um leitor me mandou. Continuo na sequência:

“Minha cachorrinha de 12 anos foi diagnosticada com diabetes. A Veterinária me indicou uma ração caríssima (R$45/kg). Pois bem, o principal componente da ração, é cevada (73g de carboidratos a cada 100g). Questionei a grande quantidade de carboidratos (faço low-carb há 2 anos, perdi muitos quilos) se não afetaria na sua glicemia.

Ela respondeu que a ração é de “baixo IG”, balanceada, blablablá… e que o tratamento somente pode ser feito usando essa ração. Sugeri usar uma dieta low-carb, porém ela refutou na hora dizendo que o excesso de proteína iria acabar com os rins e com o fígado dela.

Fiz 5 medições de glicose (a pedido da veterinária), a alimentação dela já começou com a tal ração… como esperado, o glicemia dela subiu muito após as refeições…”

Voltei. Sei que corro o risco de soar repetitivo, mas as diretrizes nutricionais, seja em cães, seja em humanos, VIVEM de negar a realidade. Ao cão, um animal que na oferta da carne opta por ser carnívoro e que, quando é intolerante ao carboidrato (essa é a definição para diabetes), a ele recomendam que coma muito… carboidrato.

Faz sentido? Não, lógico que não! Isso é delírio de toda uma categoria que não precisa estudar nutrição na faculdade para cuidar de nossos animais.

Dizer que a proteína da carne irá “acabar com os rins e com o fígado” desse animal, é como achar que um coelho não pode comer muito mato. O rim e fígado desses animais são feitos para trabalhar com essas demandas. Ou então é como sugerir que fazer atividade física faz mal porque irá “acabar” com nosso coração. É um pensamento burro, raso.

Vamos aos fatos, ao que há de evidência sobre carne fazer mal aos órgãos dos cães?

Quando olhamos estudos controlados temos que não há efeitos deletérios aos rins como consequência de uma dieta rica em proteínas em cães saudáveis.

Este trata-se de um temor infundado e falso que faz muitos pensarem que a alta ingestão de proteína pode afetar a saúde renal. Não estamos aqui negando que uma maior ingestão proteica poder ser questionada em cachorros com problemas renais pré-existentes, forçando estes a realmentereduzir sua ingestão proteica pela sua dificuldade em excretar diversas substâncias.

Para explicar esta questão de a dieta em animais com patologias específicas determinar a segurança ou não de algo em um animal saudável, gosto de usar uma analogia. Quando você tem uma perna quebrada, você não deveria sair fazendo caminhada pelo parque, mas isso nem de longe significa que sair para andar no parque resulte em uma perna quebrada. Ou seja, é um enorme engano supor que um cão que tenha rins saudáveis irá adquirir problemas porque o organismo de um animal com insuficiência renal não pode lidar perfeitamente com a excreção de proteínas.

Há aqui outra questão de ordem semântica. Uma dieta que seria hiperproteica em um animal herbívoro, por exemplo, pode não ser a um animal carnívoro como um lobo, que tem demandas proporcionais muito maiores para esse macronutriente. Oferecer uma dieta hiperproteica, ou seja, com “grande quantidade de proteína” como determina a definição do dicionário, a um animal como um cão não pode ser considerado nocivo à priori quando esta é a norma na natureza.

Um temor inicial de estresse renal de um criador que desconhece a fundo estudos na área de dietas é até compreensível. Porém, um veterinário profissional sugerir ou insistir com essa argumentação diante de tantas evidências, é sinal de ignorância ou vontade e desejo pessoal de ignorar tais evidências.

Primeiro temos que ter sempre em mente que cães parecem não ter um limite superior de consumo de proteína e carnes que trariam prejuízos à sua saúde ou integridade renal, um mito que sobrevive entre nós humanos e que é sempre levantado quando alguém sugere oferecer carne a um cachorro. Estudos já foram feitos tentando derrubar essa ideia.

Cães estão mais do que aptos a lidarem com enormes quantidades diárias de carne sem prejuízo à sua saúde. Um estudo, por exemplo, não encontrou correlação entre consumo proteico e comprometimento na saúde renal. Os cães tiveram 75% da massa dos rins retirada e foram alimentados com mais de 55% de suas calorias advindas das proteínas e ainda assim após quatro anos nada foi observado.

Os resultados de mais de 10 estudos experimentais com cães não encontraram evidências dos benefícios da redução de ingestão proteica nesses animais em diminuir também problemas renais.

Como dito, esta é uma preocupação recorrente seja em humanos ou em animais. Porém, ainda em 2005 um estudo concluía que uma dieta rica em proteínas (hiperproteica) não contribui com a falência renal. Por isso este é um temor que você não deveria ter.

Se diante evidências seu veterinário insiste nisso, você sabe o que eu penso…
 

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Uma ideia sobre “O mito do “carne demais pra um cão”…

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