O Dilema da Ração – skin in the game.

Uma coisa que donos de cães e gatos devem ter SEMPRE em mente é que o comprometimento ÚNICO e MAIOR de uma fabricante de ração para animais está EXCLUSIVAMENTE com a saúde financeira da própria EMPRESA. Ela NÃO tem comprometimento NENHUM com a saúde de seus animais de estimação. Esta é uma responsabilidade 100% SUA, intransferível.

Há aqui nessa relação indústria-tutores uma assimetria de interesse, pois o mercado quer acima de tudo vender mais. Então ele quer ganhar a preferência pelo sabor e fazer o animal comer mais do seu produto. Isso acontece enquanto o outro lado da negociação quer acima de tudo saúde e praticidade. Pois 2 estudos recentes da USP vieram jogar mais luz nesse assunto.

As embalagens de ração (para cães e gatos) normalmente exibem a imagem de alimentos que seriam grande parte da composição do produto em questão. Pois pergunto: você já viu alguma com foto de milho ou de (farinha de) vísceras de frango? Não, certo? Pois estes 2 são os ingredientes que os animais de estimação do Brasil mais consomem!

Um dos trabalhos analisou 25 marcas de ração para cães e encontrou que em média os produtos têm 60% de nutrientes de origem animal e 40% de vegetais. Quase tudo se reduzindo a milho e frango. Lobos, que são MUITO mais próximos dos cães do que nós somos de qualquer primata, NÃO consomem grãos. Mas os fabricantes de rações ideias acham essa composição uma boa ideia.

Quando vamos para a área dos felinos temos que a composição de 28 marcas de comida pra gato foi parecida. Em somente um em cada 5 produtos havia menos do que 10% de conteúdo de origem vegetal. Porém, mais importante que aos cães, gatos são animais carnívoro estritos! Ignorar isso é tão doente quanto querer alimentar coelhos ou vacas com carne, leões com alface!

PAGAR MAIS RESOLVE?

Antes fosse… As rações classificadas como premium, mais caras e que teoricamente seriam de melhor qualidade são TAMBÉM compostas fundamentalmente de frango e milho.

As fórmulas de ração para animais de estimação podem variar em proporções de ingredientes, mas os ingredientes básicos são os mesmos. Pode-se afirmar como disse a renomada pesquisadora Marion Nestlé, que o conteúdo de ração para animais de estimação é muito parecido e a diferença mais importante entre uma marca e outra não é o aspecto nutricional, é o preço.

O QUE FAZEM É CRIME?

NÃO. O que a indústria faz ao te enganar tem respaldo da lei.

Nos EUA, uma espécie de norte da nossa regulamentação desse mercado, um alimento que possui na embalagem a palavra “dinner”, “nugget” ou “formula”, precisa conter apenas 25% do alimento anunciado, neste caso a carne. Já se o produto (ração) vem com a palavra “contém”, ele precisa por lei ter apenas 3% do alimento em questão!

Para ser ainda mais preciso, nesta “regra dos 25%” e na “regra dos 3%” o fabricante tem o direito resguardado de nomear seu produto, por exemplo, dizendo que ele é feito com arroz e frango no título. Porém, na realidade, esses dois ingredientes precisam corresponder a apenas 25% da ração (excluindo a água necessária para formulá-la). Mas mais do que isso, como são dois ingredientes nomeando o produto, eles precisam ter ao menos 3% de um deles (e ao menos 22% do outro), surgindo assim a possibilidade bem recorrente de uma ração intitulada como de frango e arroz ter 22% (ou mais) de arroz e somente 3% de subprodutos da ave. Você leu certo.

É um direito do setor, não há infração legal aqui! E já quando falamos de saboro assunto piora. Um produto pode carregar a expressão “Sabor Contrafilé” já que a lei dá direito ao fabricante de nem precisar sequer colocar nada de contrafilé que não apenas seu sabor artificialmente.

Você não vai NUNCA ver entidades falando sobre este problema, mas se você ou mesmo um veterinário (!) sugerir dar carne a um cão ou gato, ambos terão problema.

Surreal, não?
 

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Uma ideia sobre “O Dilema da Ração – skin in the game.

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