Arquivo mensal: outubro 2018

O açúcar e o low-carb aos olhos de 1825…

Era esperado que após as duas maiores emissoras do país apresentarem novamente matérias dizendo que “dietas low-carb” não funcionam ou fazem mal, as dúvidas de sempre se repetissem. Eu poderia de cara dizer que pelo “tamanho” da especialista consultada eu NUNCA daria bola para o que ela fala (é minha recomendação, já disse, por não terem “skin in the game” (pele em jogo), não deveríamos ouvir NADA sobre saúde e emagrecimento vindo de nutricionistas fora de forma).
Estou atualmente lendo um clássico de 1825. O “The Physiology of Taste” deveria ser obrigatório nos cursos de Nutrição. Ele, disponível gratuito, NUNCA me foi apresentado em 5 anos quando fiz Nutrição na USP, mas uma chefe de departamento, fã da farsa que é a pirâmide alimentar, à época nos fazia comprar os livros dela. Bom, em determinado momento, o autor Jean Brillat-Savarin cita que um senhor “estava reclamando do elevado preço do açúcar” e que este senhor “não beberia nada além de água com açúcar se o preço do açúcar assim permitisse”. Isto 200 anos atrás, uma outra realidade.

O preço do açúcar caiu de tal maneira que em um dia do século 20 (ou seja, após a passagem do Sr. Delacroix por este mundo) a humanidade era capaz de produzir o açúcar de TODO o século anterior. Jogando para o campo pessoal, minha avó, falecida em 1992, muito pobre que era, só veio a consumir açúcar refinado nos anos finais de sua vida. Ela tinha que conviver consumindo apenas o do tipo cristal.
Se você olhar o gráfico abaixo verá que a participação da gordura e da proteína como fonte energética, em movimento inverso ao da obesidade, CAI ao longo das décadas. E ainda assim NUNCA estivemos tão gordos e doentes. E o que nos sugere que essa e tantas outras nutricionistas que também não sabem como manter a própria forma? Que comamos ainda MENOS gordura e MAIS carboidrato. Resumindo: o remédio dela não vem funcionando, porém ela pede que aumentemos a dose.


É ou não é esquizofrenia!? Bom, pode ser apenas ignorância desses especialistas.
O ser humano foi moldado, evoluiu, com acesso MUITO restrito ao açúcar e farinha refinada. A segunda foto que acompanha o post é a produção de macarrão na Itália em 1897. A mesa à frente da nutricionista na TV (cheia de macarrão, bolachas e pães) seria algo impensável 100 anos atrás MESMO em uma família riquíssima. E hoje a modernidade permite que mesmo famílias MUITO pobres comam o que um nobre italiano não comia. MINHA pobre avó comia um alimento (açúcar) que a elite não comia séculos atrás. Será que é por isso que ela faleceu obesa e diabética (do tipo 2 tardiamente adquirida)?

Entendem onde quero chegar?
Não é nem o fato de que você deveria PARAR de dar ouvidos a profissionais sem skin in the game (nutricionista fora de forma, a menos que seja doente, não têm “skin in the game“). A questão é que TEMOS que aprender a viver em escassez em um mundo de abundância. Açúcar e Farinha devem ser restringidos voluntariamente ao MÁXIMO para reproduzirmos assim uma época em que não adoecíamos.
E por fim, deixe de ser SAFADO. Não pergunte sobre diferentes tipos de açúcar. Veja o que fala Brillat-Savarin 200 anos atrás: “Açúcares obtidos de várias plantas, diz um célebre químico, são na verdade da mesma natureza, e não têm diferença intrínseca quando são igualmente puros.” Ou seja, se seu nutricionista passa pano para açúcar demerara, de coco ou orgânico, você não tem que trocar de açúcar, mas de profissional. Sabemos que açúcar é açúcar desde 1825. 

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Danilo Balu
autor

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O que comer antes, durante e depois de provas de até 10km?

Essa semana uma amiga nutricionista que trabalha com emagrecimento e reeducação alimentar no interior de SP me escreveu. Basicamente, uma emissora local a chamou para falar sobre alimentação e corrida. Eles querem um profissional que fale sobre o que comer antes, durante e depois dos treinos e provas. Como ela foi indicada e não é “da área” ficou meio receosa de aceitar o convite. Entendi perfeitamente. Ela que – reforço – não é da área, resumiu em uma mensagem pra mim: corrida de rua (até 1h00) é só hidratação mesmo, né?

Sabe, tempo atrás, quando eu era bem mais ingênuo e acreditava que o intuito dessas reportagens era o de informar, tinha meio que a ambição de um dia ser consultado para esse tipo de coisa. Hoje eu faço diferente. É preciso eu escrever apenas uma vez a um veículo para que nunca mais seja consultado.

O motivo de você buscar “especialistas” é puramente encher linguiça, “gerar conteúdo” (expressão moderna). Informação passa longe. Tem outra heurística bem válida: não há ninguém no clube dos que eu mais admire que seja consultado regularmente. Por que eu ia querer, então?

O pessoal da TV queria dela quais alimentos são benéficos para a atividade física. É como se existisse um alimento para correr e outro para nadar e outro para dançar zumba. É como se acerola fosse bom para corredores, almeirão a quem toca saxofone e queijo branco ao pessoal do cross-fit. Faz sentido? Alimento benéfico para atividade física é aquele que é benéfico ao ser humano. O contrário é verdadeiro. Um alimento NÃO TEM COMO ser bom ao corredor e ser nocivo ao ser humano.

Existem alimentos que são NATURAIS à nossa espécie (e por isso mesmo são bons, apenas um acadêmico com vários títulos consegue acreditar que a gordura saturada da carne faça mal, porque uma pessoa normal que tenha mais o que fazer nunca pensaria isso). Por outro lado, existem alimentos NÃO-naturais à espécie, que não deveriam ser consumidos. Só muita propaganda para convencer impunemente populações inteiras a comer margarina e óleo de canola, por exemplo.

Uma vez que corredores – até onde sei – são da mesma espécie dos demais humanos, a dieta compartilha dos mesmos “alimentos benéficos”.

Mas você poderia argumentar que comer um bife antes de correr não é a melhor prática. Bom, vários pontos. Aqui é uma questão de prática. Você não deveria comer meio porco antes de correr. Ou nem antes de nadar. Bom, uma pessoa só comete esse erro uma vez na vida, não é preciso alguém com PhD falando a respeito. É puro bom senso. Mas aqui entra outra heurística pessoal. Quando um nutricionista tem toda uma abordagem do que comer antes, durante e após correr eu tenho duas suspeitas:

1. Ele(a) é gordo;
2. Ele(a) nunca correu.

Pode reparar! Essa regra não falha!

Vamos, então, entrar na parte técnica (que alguns estão esperando que eu entre). Nosso corpo foi feito para (treinado) poder correr sem nenhuma grande “prévia preparação” por cerca de 1h00 (um pouco mais ou um pouco menos em função do grau de treino). Vou de cara descartar a questão do comer durante. Em quase 30 anos de corrida eu só precisei comer durante UMA única vez na vida, e foi em uma prova de 90km. 21km os mais lentos podem precisar. Mas a prova da TV é de 10km.

Então agora o PÓS…

O que você come após a corrida é a dieta que você comeria no domingo, numa 3ª feira, em um dia de descanso, numa tarde de outono ou em uma manhã de fevereiro. Não há ABSOLUTAMENTE nada que justifique uma refeição “especial” pós-corrida que seja…
1. Diferente do que é sua dieta habitual. (*ou seja, se você terminar de correr antes do almoço, almoce normalmente. Se acabou a prova antes do jantar, jante o que sempre jantou);

2. Ou feita sem fome. Acabou de comer e está com fome? Coma! Está sem fome? Não coma! O quê você vai comer? Leia o #1. Ainda virão DÉCADAS até os “especialistas” entenderem que a janela fisiológica de oportunidade é um espectro que não existe em 99% dos casos.
Agora, por fim, o começo. O que comer ANTES?

Como eu disse, nosso corpo vai bem sem prévia ingestão em esforços não muito longos (1h00). Para se preocupar TANTO em comer algo, estamos falando de alguém que teria que fazer uma prova por cerca de 1h30 ou mais. Mas olha que interessante… A média do corredor amador corre 1h30 por semana. Mais. A média do corredor amador está ACIMA do peso. Sendo um menor peso talvez uma das melhores variáveis de MELHORA de desempenho, tudo o que eu MAIS quero é que esse indivíduo coma MENOS e não mais!

A população só vai emagrecer quando comer MENOS vezes. Mas os especialistas em nutrição (que não correm nada!) continuam a ignorar a realidade e pedir que se coma antes, durante e depois. Se você tem um amador que corre 10km em mais de 1h00 ele não tem que necessariamente comer pré ou pós evento… ele precisa ter uma dieta MELHOR, que possibilite perder peso que assim ele correrá mais rápido! TUDO o que alguém que corra nesse ritmo precisa NÃO virá da nutrição no DIA do evento! E sim FORA desse dia!

FIM.

*estou em uma fase muito “skin in the game” (pele em jogo), eu sei… se eu juntar os 10 ou 20 melhores amadores com quem já treinei e competi bastante na vida, uns 98 a 99% deles não tinham NENHUM “protocolo” de alimentação pré ou pós. E se você falasse em “comer durante” para eles, eles riem na sua cara. 

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Danilo Balu

Sobre Macacos, Zoológicos e o pensamento evolutivo.

Ou ainda: SIM, FRUTAS ENGORDAM

Dias atrás li uma entrevista incrível com uma especialista em Nutrição Animal do zoológico Paignton, na Inglaterra. Nela a Dra. Amy Plowman mostra enxergar mais nos animais do que a categoria vê em humanos. Ela explicava os motivos de agora estarem restringindo a oferta de banana aos macacos do parque para ajudar na manutenção de um peso saudável nesses animais.

A banana (e muitas das demais frutas modernas, domesticadas pelo homem) compartilha algumas características com qualquer doce que conhecemos. Uma delas é sua baixa quantidade de fibra. As frutas mais doces (ex: manga, uva ou a própria banana), assim como um bom chocolate, são pobres em fibra. Para afirmar que frutas são fonte de fibra você tem que atropelar duas coisas: o raciocínio lógico e o matemático. E aqui reside o primeiro problema. A saciedade no ser humano tem forte relação com 4 características dos alimentos: sua SOLIDEZ (por isso beber refrigerante ou mesmo uma sopa nunca dará saciedade prolongada) e sua quantidade de: FIBRA, PROTEÍNA e GORDURA.

Outra característica que uma Manga compartilha com um sorvete, por exemplo, é seu alto teor de açúcar. Basicamente o que a agricultura fez ao longo dos séculos foi aumentar o açúcar e reduzir o teor de fibra de uma fruta. Por quê? Primeiro porque o desígnio do feirante nunca foi o de fazer você viver mais ou ser saudável, mas você comprar mais dele. E segundo porque o sabor doce é extremamente prazeroso ao ser humano. Entre uma uva doce e sem caroço ou um limão azedo o produtor sabe qual dos 2 você opta por consumir mais: a opção com mais açúcar e menos fibra.

Veja que forte sua afirmação: “as pessoas geralmente tentam melhorar sua dieta comendo mais frutas, mas as frutas cultivadas para humanos são muito mais altas em açúcar e muito mais baixas em fibras que a maioria das frutas silvestres. Nós gostamos que nossa fruta seja doce e suculenta. Dando esta fruta aos animais é equivalente a dar-lhes bolo e chocolate.”

Pois bem, a foto abaixo que ilustra esse texto é de uma banana selvagem, que era fibrosa, pouco doce e continha sementes. Mexemos tanto nela selecionando os cruzamentos que hoje uma unidade grande pode conter o equivalente a 5 sachês de açúcar (!!), daqueles de mesa de bar e café. Não há NADA de natural em uma fruta na feira. Ela é resultado de domesticação e alteração da agricultura e pecuária, que são muito mais eficientes que a Nutrição naquilo que todos eles se propõem. A Nutrição NÃO sabe como nos emagrecer. A pecuária SABE como engordar o gado.

O “problema” das frutas é que o que comemos hoje nem de longe se assemelha ao que nossa espécie aprendeu a consumir. Veja bem, as frutas séculos (ou mesmo décadas) atrás eram menores, menos doces, sazonais, de vida curta e locais (meu primeiro kiwi, uma fruta do sudeste asiático, eu devo ter experimentado somente no final da adolescência). Isso fazia delas mais raras e de muito MENOR densidade energética. Além de MAIOR densidade nutricional.

Ao contrário do que imagina o senso comum, NÃO há uma correlação clara entre maior consumo de frutas e melhor saúde. Simplesmente NÃO há. Com suco é ainda pior: maior consumo, pior o desfecho. Pois, o que o zoológico vem fazendo é reduzir o consumo de frutas e trocar por legumes e folhas, esses SIM, alimentos de consumo “livre”, liberado, relacionados com uma melhor saúde.

É tentador achar que fruta é sinônimo incontestável de saúde. Frutas como as conhecemos hoje são sinônimo de competência do setor agroindustrial. ninguém fica doente comendo fruta! Mas pode ser que uma pessoa doente (alguém com sobrepeso e/ou síndrome metabólica, por exemplo) faça muito bem por restringir seu consumo.

No meu dia a dia e dos meus clientes eu sempre falo: como bem menos fruta do que eu gostaria, você deveria fazer o mesmo. 

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