Arquivo mensal: março 2018

De Ulisses, Sereias e o canto hipnotizador dos doces

A mitologia grega nos conta em uma de suas histórias a do mortífero canto das Sereias. Vivendo em uma ilha no Golfo de Nápoles (Itália), as Sereias eram ninfas cantoras que enfeitiçavam os marinheiros pelo canto, atraindo-os para a morte. Ulisses não foi o primeiro a sobreviver ao estratagema delas, porém foi o primeiro que para passar por elas adotou uma atitude diferente.

Ulisses amarrou-se ao mastro do seu navio e obrigou sua tripulação a todos taparem seus ouvidos com cera. As sereias ficaram tão aflitas com o estratagema de Ulisses que se jogaram no mar e se afogaram (*na antiguidade as sereias eram representadas como aves, com a parte superior do corpo de mulher).

Uma coisa que todo mundo parece saber bem é o que atrapalha DE FATO nossa dieta e silhueta (**ainda que o contrário não seja bem verdadeiro, ou seja, temos como falsos-amigos alimentos que por anos de marketing benfeito ou pesquisa malfeita atribui a alimentos como aveia, pão integral, soja ou biscoitos integrais, qualidades que sabemos hoje que eles não têm). Então como dizer não a uma torta de morango depois do almoço quando temos enorme dificuldade em pensar em nós mesmos em um futuro distante, quando comer alguma guloseima dá um prazer imediato, ainda que a um alto preço (“a minute on the lips, a lifetime on the hips“)?

Todo adulto responsável tem que manter em dia suas obrigações: trabalhar, pagar contas, escovar os dentes, usar cinto de segurança. Sempre – eu digo SEMPRE – que ele tem que cumprir uma “obrigação” ele o faz sem pensar. Você acorda para trabalhar quando o despertador chama, você não se pergunta se neste dia específico você quer (ou precisa) trabalhar. Você levanta e vai. Quando o boleto vai vencer, você não se pergunta se são justas as taxas, você paga (até porque sabe que os juros e as consequências serão ainda maiores no futuro). Quando senta no carro, você não pergunta se a viagem é longa, você afivela o cinto de segurança. Você, ao menos esperamos, tem o hábito de escovar os dentes e lavar as mãos como rotina. Você não se pergunta, você age.

Um jeito fácil de driblar a tentação de colocar à prova nossa força de vontade é mudar o padrão para “fazer” sempre e não fazer em casos específicos, especiais, MUITO pontuais.

Por algum motivo – não me pergunte qual, pois não sei – com nutrição e dieta fazemos diferentes. Acabamos tomando diversas vezes ao dia a decisão se merecemos ou não comer doces, sobremesas ou qualquer outra coisa que atrapalhe a dieta (alimentos ricos em amido, por exemplo).

Eu gosto de sobremesas tanto qualquer um de vocês. Mas eu tenho minhas regras. Estou proibido de comê-las no almoço. Está fora de questão. O mesmo vale para Coca-Cola Zero (meu vício). Sendo assim, eu não tenho que tomar a decisão de comer ou não quando vejo uma. Comer sobremesa no almoço é como sair dirigindo sem usar o cinto de segurança, ou dormir até as 11 da manhã em plena 3a feira. Está fora de questão. Até porque a imaginação humana é muito criativa e você sempre – reforço novamente: SEMPRE – terá um motivo para “merecer” uma sobremesa ou refrigerante (“meu chefe está enchendo o saco“, “treinei ontem“, “vou treinar hoje“, “está em promoção“, “está calor“, “está frio“, “está chovendo“…).

 

O que Ulisses fez para salvar a si mesmo e a todos os seus homens foi aceitar que o canto das sereias era um canto tão doce quanto um mousse de chocolate. Ele não estava aberto a negociações achando que ele poderia raciocinar. Colocar cera no próprio ouvido foi o “criar uma regra” pessoal.

Eu não estou dizendo que a minha regra é a melhor (tenho outras ainda), mas acredito mesmo que devemos tê-las. Sim, devemos. A mente humana é maluca. É sempre mais fácil tornar o “não” como padrão do que tentar tomar racionalmente uma decisão de dizer “não” várias vezes ao dia. Fazemos isso, como disse, naturalmente com outras obrigações envolvendo compromissos profissionais, por exemplo. Mas somos otimistas, achamos que a decisão de não escapar da dieta é como se fosse possível não escutar o canto da sereia apenas fazendo força para sermos momentaneamente surdos.

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Visita à Praça de Alimentação

Dias atrás fui à Praça de Alimentação de um shopping em SP. Na bandeja do buffet vinha um folheto com recomendações nutricionais. Eu infelizmente tenho a mania de ler esse tipo de coisa já sabendo que não vou encontrar muita informação boa. Quando a lista falava sobre proteínas (imagem) ela lista supostas 4 fontes ricas em proteínas. Antes que algum apressado desinformado venha supor algo, eu não tenho nada contra vegetarianos ou veganos. Dá para ter uma dieta muito boa sendo vegetariano, anda que dê mais trabalho. Porém, quando você faz uma lista dessas e não cita carne, há algo de errado. Neste momento a ciência virou ideologia. Um nutricionista assim é um inútil e/ou incompetente.

Para piorar as coisas há ali má instrução ao informar que feijão (ou lentilha) são ricas em proteína. Não, não são. São ricas em amido (carboidrato). Você como vegetariano pode recorrer às leguminosas como fonte proteica, mas isso não muda uma característica intrínseca deste alimento.

A leitura não melhorava de qualidade quando corria o olhar agora nos carboidratos indicados. A lista argumenta que carboidrato bom é carboidrato absorvido lentamente (seriam os tais carboidratos complexos que não resistem à mais preguiçosa das análises em estudos). Dos listados (imagem), apenas a Quinoa tem Índice Glicêmico (IG) menor do que o AÇÚCAR. Aveia empata! *Café com açúcar ao menos tem sabor melhor que café com aveia

Do ponto de vista nutricional, poucos alimentos “naturais” (comida de verdade) são mais pobres que Arroz, Batata, Aveia. Esta é uma característica intrínseca dos grãos e dos tubérculos ricos em amido. Macarrão (integral ou o convencional) são tão pobres que você precisa enriquecê-lo artificialmente com vitaminas. Para piorar, a lista não possui nenhum legume de baixo amido, as fontes nutricionalmente mais ricas de carboidrato. Isso se chama “dissociação cognitiva”. A Nutrição até quer te ajudar, mas vive em um delírio e por isso não sabe nem consegue te ajudar de uma maneira eficiente. Para conseguir isso, você tem que recorrer aos profissionais que não aplicam o que é recomendado pelas diretrizes.

Quer outro exemplo? Na terceira imagem há uma comum recorrência ao equívoco (técnico e conceitual) da Nutrição em insistir que uma alimentação para ser saudável tem que ser “equilibrada”. É exatamente o oposto. Uma vez que não existe dieta equilibrada na natureza, nada é pior que esse tal equilíbrio quando falamos em alimentação. *expliquei melhor aqui, em meu texto “Nutrição não é sobre equilíbrio”.

Eu tenho comigo que um profissional que sugere isso é tão inútil quanto o Tony, o Tigre do Sucrilhos, como seu orientador. Isso porque todas as multinacionais alimentícias querem justamente que seu nutricionista acredite nessa bobagem porque elas assim fazem crer que obesidade é sobre se movimentar (fisicamente) de menos. A culpa seria SUA, não do LIXO nutricional que eles fabricam e vendem.

Duvida? Coca-Cola, McDonald´s, Pepsico, Unilever, Mars Nestlé… Todasessas em alguma campanha já fizeram uso de combinação das palavras “balanceado”, “(fisicamente) ativo” e “estilo de vida”. Entre o Tony, o Mc Donald´s, a Coca e o Nutricionista que prega “dieta balanceada” o discurso é exatamente igual! Faz sentido esse matrimônio do equívoco técnico com a inutilidade? Para que ouvi-lo se bastaria ler a folha da bandeja enquanto come um Big Mac?

Por exemplo, a europeia CIAA promove por lá uma “dieta balanceada e estilo de vida saudável” na base do EQUILÍBRIO. Quem banca financeiramente o projeto? As citadas, mais Danone, Cadbury, Kellogg´s, Kraft e outras. Já no Brasil, um texto INCRÍVEL vem revelar como um famoso vendedor disfarçado de pesquisador, há anos na TV e em projetos públicos defende ferrenhamente quem lhe paga: uma marca de refrigerante.

A certeza que eu tiro quando leio recomendações como essa é que isso é texto escrito por um Nutricionista. Com a mais absoluta certeza! Como eu sei?! Ninguém escreveria isso impune. Alguém tem que ter feito faculdade para ser capaz de escrever tamanha bobagem.
A área da Nutrição é um delírio!

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Corrida e Jejum

OU: A CIÊNCIA DA NUTRIÇÃO NÃO SOBREVIVE À REALIDADE

Se não fossem leitores nem me lembraria mais… fui consultado para falar de Jejum e Corrida em uma matéria pro portal “Sua Corrida“. Resumidamente:

– “É mais eficiente para queimar gordura?
Não, mas em quem tem sobrepeso (maioria dos corredores amadores) ajuda e não é pouco.

– “Qualquer tipo de exercício pode ser feito em jejum?
Praticamente.

– “É perigoso para a saúde?
Não!

– “Vou eliminar massa magra?
NÃO!

– “Qualquer pessoa pode?
Praticamente!

Óbvio que estão na matéria medos, delírios e mitos mesmo de profissionais que apelam ao achismo ignorando evidências (“jejum engorda, queima massa magra…”). Mas o que MAIS me chamou atenção na matéria ficou nos comentários no post original no Facebook. Há dezenas de comentários de pessoas que correm sempre ou muitos quilômetros em jejum.

Sempre que vejo os ~especialistas~ de Nutrição falando acho que vivem em uma bolha, num mundo à parte. Jejum é moda? Faz mal? Profissional de Saúde que diz isso é descolado da realidade. Jejum se faz há milhares de anos e estudos não faltam! Pregam um mundo que eles sonham, não um que acontece na vida real.

Se diretriz nutricional diz que faz mal, é porque deve fazer bem… Se diz que faz bem, certifique-se… a profissão tem enorme talento pra errar sempre!

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Sobre “skin in the game”, Maratonas, Câncer, Bitcoins e a Dra. Lorca

OU AINDA: FAÇA O QUE PREGA

Mês passado, em mais um daqueles programas governamentais de conscientização da população, um médico do INCA (Instituto Nacional de Câncer) foi à TV para nos alertar sobre os riscos da doença. Ele falou obviedades como o peso do estilo de vida e da alimentação nas chances de incidência da doença. A coisa ficou mais interessante quando chegou a parte da nutrição: o que fazer para melhorar nossas chances, doutor?

O médico que deveria saber o que fala, não pensou duas vezes: consumir pouca carne e menos alimentos industrializados. Não fez nenhuma menção ao açúcar, nenhuma menção aos óleos vegetais, nenhuma menção ao álcool. Somente carnes e alimentos processados.

Eu nunca teria esse doutor como meu médico! Não é nem o fato de ele não entender muita coisa sobre (prevenção de) Câncer ou Risco (o assunto do qual ele fala, então deve ser sua especialidade), mas é porque ele não tem “skin in the game”. A pele dele não está em jogo.

Falo isso porque o próprio site do INCA estabelece que para evitarmos câncer deveríamos comer menos de 300g de carne por semana. Eu devo comer isso por dia. Eu aposto com muita certeza que este médico também ultrapassa esse valor semanal. O doutor só não sabe do que fala, como também não segue o que recomenda. Então por que eu seguiria alguém que não segue o que prega?

BITCOINS – “Nunca embarque em um avião se o piloto não estiver a bordo.” (Fat Tony)

Eu não tenho criptomoedas, não tenho moral para recomendar que você ou qualquer um a compre. Vamos pensar diferente. Imagine que você contrata um consultor financeiro que lhe recomenda: aplique todo o dinheiro que tiver em criptomoedas, venda seu carro, venda sua casa, viva de aluguel e compre quantas bitcoins puder. No que você pergunta: “por curiosidade, quantas você tem?” No que ele responde: “nenhuma, acho isso muito arriscado”.

Seguindo uma lógica bem interessante defendida por Nassim Taleb, as pessoas que votam a favor da guerra precisam ter, pelo menos, um descendente (filho ou neto) em combate. Na antiga Roma os engenheiros precisavam passar algum tempo sob a ponte que eles haviam construído. Dizem que os ingleses foram ainda mais longe, obrigaram as famílias dos engenheiros a permanecer com eles sob a ponte construída.

MARATONAS – Se for amador, corra com quem já correu pra valer 42km.

Há uma discussão eterna “conhecimento vs prática” no esporte. É uma discussão tola, uma vez que se complementam e não se excluem. Eu treinaria (e já treinei!) com um não-formado, com alguém que não tem CREF (eu não tenho). Mas eu nunca, jamais treinaria para uma Maratona com um treinador que nunca correu para valer os 42km. Nunca. Assim como nunca iria para uma aula de natação com um treinador que não sabe nadar, ou nem aprenderia basquete com alguém que não gosta do jogo. É simples. Muito simples.

A pessoa precisa ter a pele em jogo. E antes que você pergunte se renomados treinadores como Renato Canova ou Steve Magness correm maratona, eu lhes digo que o salário deles, a renda deles, vem da porcentagem que seus atletas ganham se e somente se correrem muito bem. É uma relação de esporte profissional, não amadora. Canova e Magness têm a pele em jogo sem precisarem correr sequer 21km.

Dra Lorca, nutricionista personagem do programa humorístico Zorra Total.

DRA LORCA – Nutricionistas deveriam, sim, ser magros.

Anualmente quando chego ao meu dentista, o Ayman, eu falo a frase que Tony Stark disse ao Capitão América em “Guerra Civil”: “às vezes quero dar um soco nesses seus dentes perfeitos”. Eu nunca teria o Tião Macalé como meu dentista. Assim como nunca teria um treinador que nunca correu 42km, nem compraria bitcoins seguindo conselho de quem nunca comprou.

E eu nunca teria uma nutricionista obesa me orientando. Simples. É sabido que a dieta (aquilo que uma pessoa come ao longo do tempo) é a maior responsável pelo seu peso. Sim, estilo de vida, nível de atividade física têm seu peso, mas são bem menores, muito menores. Doenças e genética também. Mas sabemos que o peso tem a dieta de longe como seu maior componente.

Se a minha nutricionista é obesa, há de forma meio geral 3 opções: uma doença/condição (ex: hipotireoidismo ou depressão), que é de longe a menor das possibilidades. Há a chance ainda dela seguir o que fala e não dar certo. Ou de não seguir o que fala, o ponto central do texto. E isto, não seguir, não me serve (assim como uma dieta que não funciona também não me servirá).

Sendo assim, sim, é de muito bom tom que a/o nutricionista seja magro(a) ou em forma. Ele precisa ter e colocar “a pele em jogo”. Porque na eventualidade de danos causados pela confiança que se deposita na dieta desse profissional, ele precisa ter algo a perder com isso. Ou seja, se ele recomenda low-carb ou low-fat ele tem que seguir a dieta. E se seguir e continuar gordo, já saberemos que o que fala não presta.

Se você não segue o que prega (ou o que vende, treinador!), isso não é opinião. Falar sem fazer (ou ter feito, no caso dos 42km), sem se expor aos danos, sem colocar a própria pele em jogo, sem ter algo em risco, você fica com as vantagens, transferindo a seu cliente todo o risco e todo o prejuízo. É um alargamento na dissociação de interesses. Não me serve.

*sim, como corredor eu também JAMAIS me consultoria com um(a) nutricionista que nunca correu pra valer 42km. Quem corre sabe que a absoluta maioria das diretrizes e recomendações nutricionais não sobrevive à rigidez do mundo real.

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