Arquivo mensal: janeiro 2018

Correndo e comendo com os Etíopes

*texto originalmente postado no Blog Recorrido sobre minha experiência treinando com os corredores etíopes.

Logo que cheguei à Etiópia, ainda no aeroporto, algumas coisas me chamaram a atenção. Uma delas era pessoas em forma, nada de obesos, saudavelmente magros. Além disso, não havia restaurantes fast food no local. Soube ainda depois que o Mc Donald´s não desembarcou no país. Quando fiz uma associação dessa ausência com o baixo índice de obesidade, um desses comentaristas que escrevem em 4 apoios disse:

“Energúmeno, qual a renda média? Os caras não comem, não comem nem calorias nem proteínas. São magros por desnutrição.”

Pois o mais legal de jogar com números, algo que eu adoro, é você poder colocar em teste alguns dos conceitos que temos bem arraigados. Um deles é antigo e não sobrevive nem a uma pesquisa preguiçosa. Por exemplo, quando cruzamos a lista de dados dos países organizados pelo ranking de IMC (um índice comparativo este que é pouco confiável quando olhado individualmente, mas que ajuda demais quando trabalhamos com populações heterogêneas) é que colocado lado a lado com o ranking de ingestão calórica você observa que não há um padrão claro. Ou seja, que consumir mais calorias não tem uma correlação positiva com mais obesidade. Ou ainda nas palavras de Nate Silver em sua obra mais famosa, O Sinal e o Ruído: “parece haver indícios restritos para uma associação entre obesidade e consumo calórico; pelos testes padrões, tal relação não seria qualificada como “estatisticamente significativa“.

O que isto quer dizer? Que a magreza etíope não se explica somente pelo baixo consumo calórico (o que é um fato), uma vez que há países que comem menos calorias e têm IMC maior e países bem obesos que consomem menos calorias que outros países magros.

Seria o baixo consumo proteico etíope, então? Hoje há uma espécie de cruzada entre os que acreditam na nunca testada e provada tese da gordura (ou das calorias) como engordativa quando é o carboidrato quem impacta o metabolismo de gordura. Como muita gente que se diz especialista no assunto não aceita quebra de paradigmas, abrem mão até de um dos nutrientes pouco lembrados na questão, a proteína. E, novamente, está acessível para quem gosta do tema: quando colocamos prevalência de obesidade com consumo proteico, voilà, aparecem paradoxos. Paradoxo nada mais é que um jeito chique de você não aceitar algo que vai contra sua teoria. Apesar do baixo IMC da Etiópia, você encontra vários países que consomem muito menos proteína que esses africanos.

Uma passagem muito bem descrita de uma pesquisa americana relatada em “Por que Engordamos“, livro ignorado por quem finge estudar o assunto, fala do trabalho de um pesquisador que ficava perplexo de como havia crianças desnutridas sendo carregadas por mães brasileiras claramente obesas que TAMBÉM não tinham muito o que comer nas favelas.

Obesidade (ou magreza) não se explica por quantas calorias comemos, que é o que diz esses rankings da ONU, mas QUAIS comemos. As mães faveladas brasileiras da pesquisa comiam pouco, mas consumiam muito açúcar. Suas crianças, comiam poucas calorias, pouca proteína e também pouco açúcar.

Cada um acredita no que quiser, até que controle de peso é sobre calorias, não sobre O QUE se come. Porém, para isso deverá ser feito um malabarismo lógico e argumentativo uma vez que dietas hipocalóricas têm um rico histórico de ineficiência.

Propositadamente, ignorei aqui o argumento da questão da (baixa) renda, até porque dentro da mesma sociedade desde sempre é sabido que os mais ricos são mais… magros! Desconsiderados os bolsões de miséria, renda não deveria ser questão central nesse debate.

Pelo que pude ver em minha experiência em Adis Abeba, os corredores sabem de duas coisas que deveriam ser sempre bem lógicas: comer de modo saudável é o mínimo que você deveria fazer se deseja correr bem. Mais: corrida é sobre coRRer, não sobre comer. Não há debate sobre o que comer ou beber. Não havia suplementos, não há BCAA, não havia gel nem isotônico! Isso é coisa de atleta que corre de menos e de nutricionista que sabe de menos. Após nossas sessões de treino, quem tinha mais fome comia alguma banana, bebia algo e era isso! Os que estavam se sentindo bem, iam embora sem a tarefa de comer na “janela de oportunidade”, falácia essa que deveria já ter morrido na década passada, mas que ainda sobrevive entre alguns “especialistas”.

Enfim, corrida é o esporte mais simples que existe. Para correr bem você precisa rodar muito (volume), estar magro (em forma) e ter paciência. Os etíopes fazem tudo isso. Eles comem de modo saudável que os deixa magros. Quem quer achar algum atalho que não existe cai no golpe da dieta personalizada, equilibrada, BCAA, Glutamina, etc. Não aprendem nunca.

*durante meu período lá, não vi nem comi açúcar branco (refinado), no máximo vi o do tipo cristal. Não vi fast food, não vi sorvete, não lembro de ter visto muito chocolate. Apesar da fama ofensiva a eles de que passam fome, vi mais banana, laranja, tomates, avocados e iogurtes do que já vi no Brasil. É difícil você engordar quando você não consome justamente aquilo que te faz engordar: açúcar e alimentos processados e/ou ricos em amido.

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Glúten faz mal? Ou ainda: fuja do Nutricionista que diz que não!

Um princípio que meus clientes sabem que eu sigo é que eu não lhes digo o que eles devem comer, eu digo é que eles NÃO podem ou NÃO deveriam comer. Pode parecer a mesma coisa, mas os conceitos são bem distintos. Por uma questão evolutiva, de risco, naturalista, estamos há milênios consumindo de forma segura alguns alimentos. Carne, sal, ovos, folhas, legumes. Não há como isso fazer mal. Já soja, folhas de bananeira, tabaco e cogumelos selvagens você deve consumir sempre assumindo os próprios riscos.

Já falei aqui outras vezes, o melhor tipo de raciocínio é aquele que diz que o conhecimento é subtrativo, você vai aprendendo o que NÃO pode fazer, você acaba descobrindo aquilo que é falso. E o tempo é um grande, senão o melhor aliado.

Governos não deveriam JAMAIS ter diretrizes nutricionais por 2 motivos. Primeiro porque não sabem aquilo que nos faz bem e segundo porque quando erram, erram feio e não assumem seus equívocos. Governos NÃO voltam atrás na mesma intensidade em suas recomendações. Até hoje temos profissionais de saúde, alguns formados com dinheiro público, defendendo as teorias completamente falhas dos anos 50 e 60 (low-fat, déficit calórico e a teoria do colesterol e risco cardíaco) que mataram MUITO mais do que seriam capazes de salvar.

Mês passado fomos surpreendidos com mais uma nota, dessa vez da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), que só um veículo patrocinado ou ignorante no assunto “risco” pode nos dar. O glúten seria assim seguro e fundamental, uma dieta com restrição dele não é bem-vinda. A ABRAN é só um sintoma, qualquer outro veículo dessa qualidade já escreveu algo a respeito sempre “em favor” do glúten. Ele e TODAS as outras nos reforçam de tempos em tempos que você além de ignorar diretrizes nutricionais oficiais, deveria ignorar sempre QUALQUER entidade ou associação de Saúde que se mostra financeiramente não-independente.

Cortar ou reduzir o consumo de glúten é o que TODO profissional de saúde DEVERIA recomendar porque isso é algo completamente seguro ao ser humano. Nós NÃO temos necessidade de consumir tal nutriente. É uma questão de risco! Para ser mais exato, gerenciamento de risco naturalista porque a remoção de algo não-natural, não-essencial (no caso, o glúten em nossa dieta) não pode provocar efeitos colaterais a longo prazo.

Repare que o posicionamento do qual falo veio sem assinatura de um especialista, mas que seria resultado de uma decisão científica, pois sabe que o leigo está contaminado pelo cientificismo, já que qualquer porcaria dita por um especialista ganha importância, ainda que ele seja completamente ignorante em risco, mas acha que sabe dizer o que é ou não seguro. Mas não sem antes se esconder no anonimato.

Glúten não é seguro. PONTO. Isso é premissa básica. Você consome SE você quiser.

O que você também já sabe agora é que o Nutricionista ou Médico que disser “pode comer glúten” se não sabe sequer o que pode lhe fazer mal, não é a melhor opção para dizer o que pode lhe fazer bem.

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Gorduras Boas e pensamento libertador.

No dia a dia eu tenho várias heurísticas, aqueles atalhos mentais que servem para facilitar nossa vida. Quando o assunto é Nutrição tenho várias delas. Por exemplo, se um profissional de saúde diz que Quinoa e Feijão são fontes proteicas, já o coloco na gaveta dos vegetarianos, herbívoros ou dos low-fat, daqueles que morrem de medo de gordura na dieta. Se o profissional diz que quinoa e feijão são é fonte de carboidrato (e são mesmo, basta olhar suas composições), já sei que deve ser de uma linha mais low-carb.

Outra heurística minha diz respeito ao entendimento da pessoa sobre Gorduras. Repare, não deve haver UM veículo ou profissional realmente competente que para citar exemplos de “gorduras boas” não diga nada muito além do “abacate, nozes e azeite” (faça esse exercício no Google, chega a ser divertido a ponto de dar risada tamanha a limitação dos especialistas). Isso se chama bloqueio mental. Por mais que esse profissional tente aprender, se atualizar, quebrar conceitos e ideias equivocadas, ele fica preso a conceitos ultrapassados, arraigados há muito em sua mente.

Um desses conceitos é o de que haja “gorduras boas”. Isso não existe! Na natureza se nos alimentamos naturalmente de um alimento há milhares de gerações, esta gordura é por si só segura, ela não é ruim, o que é diferente de ser boa. Do contrário, se ela é sintética (como a gordura trans ou os óleos vegetais industrializados como o de Canola, de Girassol, de Soja, de Milho, etc.) esta é uma gordura RUIM ou no mínimo NÃO-segura.

Quem defende o contrário tem que fazer um contorcionismo argumentativo que não sobrevive à lógica (ou que nos entrega à ignorância deste profissional no assunto), afinal, abacate e azeite não têm composições lipídicas radicalmente diferentes das da… CARNE.

RECOMENDAR PEIXE É ANTES DE TUDO SER INÚTIL

Gordura boa é gordura segura!

Você dificilmente encontrará nos exemplos de “gorduras boas” a CARNE. E aqui NÃO vale citar PEIXE. Por que não?

O que diferencia um profissional de um leigo é entre outras coisas que aquele consiga oferecer a este algo, uma informação, que o leigo não saiba da área de atuação. Uma vez que não deve haver estudos sobre peixes que tenham desfechos negativos com o consumo desse alimento, ou seja, consumir mais peixe sempre está relacionado a uma melhor saúde, o Nutricionista (ou Médico) vir dizer para comer peixe é tão dispensável ou tão inútil quanto o Educador Físico vir dizer que fazer exercício é bom, ou o Médico vir dizer que fumar faz mal, ou o homem do tempo na TV dizer que a chuva molha. Sem agregar informação, o nutricionista que cita peixe é entre outras coisas um inútil, ele é dispensável.

Útil é o profissional que vem a você e fala: coma carne, sua gordura é segura e não faz mal.

A CARNE PODE SER LIBERTADORA

Escrevi tudo isso porque mesmo perfis de Instagram que soam como esclarecidos (como o Jejum Intermitente, por exemplo) são incapazes de citar a carne como “boa”. Citam o queijo e o azeite, alimentos feitos pelo homem. É um misto que mora entre a ingenuidade e a arrogância tão humana de achar que podemos superar e melhorar a natureza. Limitar as gorduras boas a peixe, abacate, azeite e castanhas é sinal claro de quem desconhece a composição desses alimentos e a da carne. Ou lhes falta discernimento ou entendimento técnico.

Aos nutricionistas que falam essas bobagens (que carne não é uma grande fonte de gordura essencial), fica meu desafio Skin in the Game: eu fico sem comer abacate, azeite e castanhas. Vocês ficam sem a carne. Vejamos quem perde mais.

Fica aqui o recado, se você segue profissionais dispensáveis, que não conseguem saber aquilo que você já sabe (peixe e abacate, uma fruta de baixo açúcar, são saudáveis), e que não conseguem sair do bloqueio mental de que carne também seja fonte segura de gordura uma gordura essencial, talvez seja hora de trocar de profissional, pois este é mais do que dispensável.

*mas se seu médico ou nutricionista recomenda preferência por óleo de Canola, Deus tenha piedade de você

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