Sobre açúcar e vício

Domingo agora postei um texto de Gary Taubes que falava sobre a enorme dificuldade de você conseguir cortar carboidratos. Para colocar em perspectiva, Taubes é o pai do low-carb moderno e autor do livro mais importante escrito na Nutrição nos últimos 50 anos. Desconfie de quem diz trabalhar com emagrecimento e não tiver lido sequer o resumo do “Good Calories Bad Calories”, o “Por que Engordamos”.

Por não ser médico, nunca espere que ele encontre simpatia de gente da área da Nutrição. Ao recapitular pesquisas de mais de 100 anos, ele nos mostrou que absolutamente TUDO o que sabemos e aplicamos na área de emagrecimento, saúde do coração e controle de peso é um ENORME equívoco, uma grande mentira.

Taubes fala aquilo que boa parte dos nutricionistas ignora: nosso peso não é resultado de menos calorias ou de maior força de vontade em gastá-las, mas de escolhas alimentares sobre O QUE comer. E temos um enorme problema quando o talvez o alimento mais engordativo que existe, o açúcar, impacta justamente nossa capacidade de escolher corretamente. Por quê? Porque ele é viciante como uma droga ilícita. Sim, você leu direito.

O debate é recente. Começou de vez apenas nos anos 70, uma vez que até então sempre foi considerado seguro. Basta lembrar que até 1985 a diretriz americana dizia ser OK comer até 25% das calorias diárias via açúcar. Sim, você leu direito (2). Para complicar ainda mais, as pesquisas na área são complicadas. Pois como viciar voluntariamente alguém? Tente você conseguir autorização para oferecer açúcar e cocaína a crianças em nome da ciência. Ou aplicar heroína, açúcar e morfina em adultos em nome da saúde. Tente. Difícil, não?

Porém, quando visto com calma, não é difícil aceitar que a cocaína do jeito proibido, ou seja, em pó e refinada, é muito mais perigosa (e viciante!) do que sua versão em folhas de coca, consumidas legalmente na Bolívia sem graves efeitos colaterais sociais, por exemplo. Raciocínio similar valeria para o açúcar? Ou seja, refinar carboidrato em açúcar o tornaria mais potente? Por que não?

Pois bem, pesquisas feitas com ratos observou que 92% deles deixam o vício da cocaína de lado EM APENAS 2 DIAS para trocar por água com açúcar! Aliás, essa troca só não ocorreu com heroína! Isso porque o consumo de açúcar (mesmo na forma de suco de laranja!) libera dopamina e seu consumo regular faz que você precise cada vez mais dele para gerar a mesma satisfação. É como qualquer outra droga ou vício (em jogo, sexo, pornografia, cafeína…). Ainda que com outro poder, é cíclico, é viciante, é mais forte que a força de vontade.

Obviamente que ainda assim a coisa não pode ser apenas na base do achismo. Pois Robert Lustig, autor do ótimo documentário “A Verdade Amarga” (aqui com legendas em português), explica em seu livro “The Fat Chance” (ignorado nas faculdades brasileiras!) que há 7 critérios (tolerância, abstinência, desejo, compulsão…) que para definir algo como viciante tem que dar positivo em 3 ou mais. E açúcar cumpre os requisitos tanto em ratos quanto em macacos. Reforçando que não podemos fazer pesquisas com crianças e temos limites éticos para aplicar em adultos.

Acontece que aceitamos que o refrigerante mais conhecido do mundo não tenha mais cocaína, porém, o que pouca gente sabe é que essa retirada não impactou suas vendas 100 anos atrás, uma vez que o açúcar fosse mantido! Você pode alegar que era uma questão de gosto. As pesquisas dizem que é algo mais. Não só ela, a própria indústria sabe disso. Empresas de cigarro na metade do século passado passaram a injetar com sucesso açúcar nos cigarros com explosão nas vendas. A história passa ainda pela criação da mais conhecida marca de cereais matinais. O seu braço que era contra açúcar no desjejum infantil, quebrou. Já aquele que desenvolveu a técnica pioneira de injetar açúcar neles, é a maior do mundo no setor até hoje. Isso funciona com tudo. Não pode ser apenas gosto. Tem que haver algo mais do que coincidência.

Veja bem, Taubes em seu texto fala sobre vício. Que temos uma droga lícita e social que te faz agir irracionalmente, uma vez que você ignora o mal que ela faz à sua saúde em troca do enorme prazer que dá. Você não vai conhecer ninguém viciado em rabanete ou escarola. Porque ali o que há é carboidrato mais complexo e com muita fibra. Mas uma bomba de chocolate macia tem muito açúcar e/ou carboidrato refinado (farinhas). E isso te faz agir de modo viciado.

Ignorar que há vício em um alimento gostoso é achar que o mundo inteiro passou a comer açúcar coincidentemente. É má fé, ignorância no assunto ou teimosia. Estou longe de sugerir que nunca mais coma açúcar. É praticamente impossível socialmente (enquanto escrevo, há faz 4 dias 3 chandelles na minha geladeira compradas provavelmente por um duende ou gnomo). Mas você PRECISA SABER DE SEU CUSTO fisiológico. Deve evitar, limitar seu acesso. Mais do que isso: respeitar. O açúcar é provavelmente mais forte que você. E mais nocivo do que imagina.

*uma das coisas que mais ouvi de um Nutricionista que achou que seu CRN era evidência, foi que açúcar não pode ser viciante já que nem todos se viciam nele, o que é uma verdade. Pois nem todo mundo se vicia em maconha, cocaína, heroína, cigarro, álcool… Não é preciso que todos se viciem para que algo tenha essa característica.

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