A Nutrição, assim como a vida, é feita de escolhas

Um estudo publicado recentemente no Journal of the American College of Cardiology veio corroborar o encontrado em tantos outros levantamentos. Feito com mais de 900 pessoas acima do peso, basicamente dividiu-se os indivíduos em 3 grupos. Para um deles eles davam orientação (aconselhamento) e um guia alimentar (Health Canada Food Guide). Um segundo grupo não recebeu nenhuma orientação, porém, recebia semanalmente uma cesta com os alimentos recomendados no guia alimentar em questão. Por fim, um terceiro grupo recebia ambos: orientação (com guia alimentar) e a cesta semanal com os alimentos dito saudáveis.

Deixemos um pouco de lado que as atuais recomendações nutricionais oficiais no emagrecimento se baseiam em fé, não em ciência ou evidências. O que vale destacar é que depois de 6 meses houve nenhuma ou pouca diferença no peso, na cintura e na pressão arterial entre os 3 grupos. Para ser mais preciso, a perda média de peso foi de somente 1kg em 6 meses! Isso derruba MUITO do que se prega atualmente na Saúde Pública: especialistas defendem que devemos educar a população e que devemos aumentar o acesso a alimentos ditos saudáveis. Sim, é difícil discordar dessa política, mas agora podemos desconfiar que isto teria impacto irrisório, praticamente nulo na saúde da população. A Nutrição mais uma vez é pega na desilusão de viver em seu mundo de esperança que não funciona na vida real…

Mas… Por que educação e acesso a alimentos saudáveis pouco ajudam?

A explicação não é fácil, é baseado mais em conceitos do que em evidências. Gosto muito de duas ideias: a do conhecimento ser subtrativo e também o da via negativa. Resumindo e adaptando os 2 de modo quase perigoso temos que é bem mais fácil sabermos com segurança o que nos faz mal do que descobrirmos o que faz bem. E é bem mais fácil, usando a via negativa, saber aquilo que gera estresse ao organismo. Sabemos que açúcar (e farináceos, e doces, e refrigerantes…) fazem mal, mas é muito difícil saber se agrião ou beterraba, por exemplo, fazem bem.

A questão da alimentação tem uma particularidade fundamental que os profissionais de saúde parecem ignorar: é uma questão somatória. Você pode ficar sem correr, ou seja, para estudar o impacto da corrida na saúde, você pode deixar um indivíduo sem correr. Mas não há como deixar alguém sem comer. Uma vez que essa pessoa vai necessariamente comer algo, entra outra variável importantíssima: a pessoa ficou com sua saúde melhor (ou pior) porque ela comeu mais verduras ou porque ela deixou de comer fast-food? É muito mais fácil entender e descobrir qual seria o vilão em um fast-food (bastaria para isso analisar indivíduos que comem somente partes componentes de um sanduíche), mas é muito mais difícil descobrir os diferentes papéis quando há trocas, ou seja, parei de comer X-Salada com refrigerante e passei a ser vegetariano. Era o milk-shake que me fazia mal ou os legumes e folhas que fazem bem?? Sabemos que o primeiro é verdadeiro, mas ainda NÃO sabemos se o segundo o é!

Dividimos alimentos em mocinhos e bandidos. Mas fazemos isso muito mal.

Hoje não surpreenderia ninguém que a resposta dos profissionais da área à pergunta acima seria que ambos: um faz mal e o outro faz bem. Mas… será mesmo?!

Eu tenho enorme dificuldade em acreditar em super-alimentos (*OK, acredito que fígado bovino, cogumelos, brócolis e ovos são quase 4 super-alimentos). Mais do que isso, tenho enorme resistência em falar que alimentos como óleo de côco ou bebidas da moda como kefir ou bulletproof coffee são bons. Porque o erro daí em diante é generalizado. Quando eu era adolescente, eu chegava a comer – sem exagero – uma dúzia de laranjas quando estava doente, pois na minha cabeça quanto mais melhor, afinal, fruta é bom, não?! Mais de uma vez atendi pessoas que consumiam colheres de óleo de côco porque “é um alimento bom”, que só tomavam cafés especiais com manteiga. Pode parecer lógico, mas há uma enorme diferença entre um alimento fazer mal e outro alimento fazer bem! E uma vez que haja alimentos que façam bem, é muito diferente achar que mais dele signifique melhor.

Já sabemos que há alimentos que mesmo em quantidades muito pequenas são ruins, mas ainda NÃO sabemos se existem muitos alimentos que sejam por essência bons. E já sabemos que mesmo esses alimentos em grande quantidade NÃO fazem “mais bem”!

A pessoa precisa saber que quando ela come 3kg de brócolis com 1kg de amora por dia, ela não terá muitas condições de comer comida sabidamente ruim (doces, refrigerantes, fast-food, alimentos processados e industrializados…) ou, na pior das hipóteses, comerá necessariamente bem MENOS de alimentos SABIDAMENTE ruins. Uma pesquisa que estudasse uma população assim, inevitavelmente concluiria que brócolis e amoras são alimentos mágicos sem perceber que é a via negativa, ou seja, é a AUSÊNCIA desses estressores em questão que nos faz bem!

Isso mais confunde do que ajuda porque sabemos que algo ruim NÃO está sendo consumido, mas identificamos como algo que não é necessariamente BOM como tal.

Atualmente acreditamos equivocadamente que alguns grupos de alimentos (principalmente frutas, legumes e grãos) são tão bons, tão saudáveis, que seriam capazes até mesmo de reverter problemas de uma má alimentação. Eu penso BEM diferente. Não só acredito que esses alimentos nem sejam assim tão bons (seriam em sua maioria no máximo neutros) como – e isso a ciência está do meu lado – eles NÃO têm a capacidade de reverter os problemas que comer mesmo quantidade pequena de açúcar e gordura trans, por exemplo, nos traz.

Hoje encaramos a Nutrição como se, por exemplo, comer quinoa (ou qualquer alimento da moda) pudesse reverter os males de fumar. Não, não consegue! Assim como o cigarro faz mal INDEPENDENTEMENTE daquilo que você consuma, temos que lembrar que NÃO HÁ COMPENSAÇÃO na Nutrição. Ou você come mal ou você come bem por não comer o mal. Não existe comer uma somatória de forma a se neutralizar.

Quando analisamos dados populacionais, podemos observar que a população obedece a recomendação de comer mais frutas e legumes. Qualquer levantamento confirma isso. Mas a população não deixou de comer também os alimentos “maus”. Como não há fruta que compense fast-food, a população adoece. Hoje consumimos suplementos de ômega-3 achando que ele fará bem (não fará). A doença está que hoje, pelo consumo dos óleos industrializados (de soja, milho, girassol ou canola) consumimos muito ômega-6. Não é a falta do 3 que faz mal, é o excesso do 6! Na Europa alguns levantamentos interessantes mostram que passaram a comer mais frutas, SEM deixar de comer comida processada. Resultado? Uma Europa obesa e doente como nunca antes. Resumo: fruta pode ser chamada de alimento bom, mas NÃO faz diretamente NADA para ajudar quando temos uma má alimentação

Podemos fazer um paralelo assim: a área da Nutrição tenta tratar uma pessoa que tem muita dor quando corre recomendando muita fisioterapia, pedindo tênis caros, tratamentos inócuos, kinesio tape e muita fé tentando descobrir a solução do problema. Um jeito BEM mais fácil de tratar essa dor é pedir que essa pessoa simplesmente não corra, que faça N outras atividades que NÃO a corrida. Se ela quiser correr, terá dor, se ela quiser seguir comendo X-Salada e bebendo cerveja diariamente, ela VAI continuar goda. É simples assim. Não importa o quanto de quinoa ou almeirão ela coma. Esses e outros alimentos não fazem necessariamente bem, mas podem evitar que você consuma (ainda mais) dos que te fazem mal.

Sabe os 900 do estudo do início do texto? Eles comeram mais comidas saudáveis, mas não deixaram de comer as porcarias. O custo fisiológico do alimento processado é maior do que qualquer quantidade de beterraba que você coma.

TIRE o agente estressor que não haverá estresse.

Não procure alimentos mágicos, eles ou não existem ou ainda não sabemos quais são.

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