NOTA DE RETRATAÇÃO.

Prezado(a) leitor(a),

Em conformidade e atendendo a uma notificação extrajudicial a mim enviada dias atrás pelos procuradores da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE E DA SÍNDROME METABÓLICA, a ABESO, escrevo abaixo uma mensagem de retratação por alegações que, segundo eles, eram “inverídicas” e buscavam a “atingir a honra, retirar a credibilidade e prestígio da ABESO”.

Fui pego de surpresa. Vocês sabem que não ligo a mínima para o que a ABESO diz sobre o assunto Nutrição. Acredito que a entidade tem enorme talento e competência de errar por completo no tema, do início ao fim, quando fala sobre recomendações no emagrecimento, diabetes e controle de peso. Não acho também que eles liguem muito para o que eu falo. Afinal, somos tão antagônicos, com interesses tão distantes na matéria, que nunca um diálogo seria formado espontaneamente. Porém, isso não os tira o direito legítimo de exigir o que exigem quando estão certos.

Incomodou à ABESO que em meu texto em questão eu dizia que eles possuíam um comportamento e “relação acintosa, promíscua, desavergonhada, condenável e vendida”. E em parte eles estão corretos, com a razão: eu ultrapassei o limite do razoável e do justo para com a entidade.

Recorrendo ao dicionário temos:

Acintoso: adj. Apoquentador; que provoca aborrecimento; que contraria e aborrece. Provocador;

No dia que escrevo isso, assisti no Jornal Hoje matéria explicando que o Brasil atualmente tem em sua população cerca de 60% de pessoas com sobrepeso e 20-25% de pessoas obesas. A entidade publica em seu site a 4a edição das Diretrizes Brasileiras de Obesidade (2016). A parte referente ao tratamento dietético é um equívoco científico de seu início ao fim.

A ABESO se orgulha de ser uma entidade com 500 associados (de diversas profissões) espalhados por todo o país. Fico eu imaginando a quantos obesos e doentes seu discurso não chega. A obesidade, não é preciso dizer, é um gravíssimo problema brasileiro e global. Pois as diretrizes de uma entidade que carrega em seu nome a palavra estudo, parece feito sem ele. Ou eles não estudam ou a cada linha que leem, entendem tudo pelo avesso. A obra parece feita por um estudante que em seu trabalho “enche linguiça” sem relacionar diretamente as referências do que vai dito, porque sabe que um professor mal pago e demasiado atarefado não se dará ao trabalho de verificar tudo.

Conseguiram. O que vai na parte em questão é tão pobre do ponto de vista de evidências e rigor científico, que eu prefiro acreditar que a disposição das referências, na verdade falta delas, é para deixar claro que no assunto eles se baseiam em fé, esperança, hipóteses e ciência sem rigor e muito mal feita. Se você tentar verificar o que é dito, se verá de mãos atadas. Sem poder recorrer às bases de tal pensamento retrógrado, tal como eles, vai ter que aplicar a fé. Tudo isso em u problema seríssimo.

Mesmo dentro da diretoria da entidade, reduzir obesidade a uma questão matemática é um método, não a exceção. Um dos seus diretores disse que (por ter 4 calorias por grama, igual o açúcar) “exagerar no consumo de proteína – em forma de whey protein, por exemplo – engorda”. Essa fala, vindo de alguém importante lá dentro mostra o nível raso do debate do tratamento da obesidade.

Ainda segundo o dicionário, temos:

Promíscuo: (…) Que abarca elementos desonestos; que contém imoralidade ou degradação moral.

Desavergonhadamente: De modo sem-vergonha; de maneira a não sentir arrependimento ou constrangimento por seus atos condenáveis: mentia desavergonhadamente. Descaradamente; de modo descarado; em que há atrevimento: comportava-se desavergonhadamente.

Condenável: adj. Que se consegue condenar; que merece ser condenado; suscetível ou digno de censura; que pode ou deve receber críticas; censurável ou repreensível.

No mercado do emagrecimento, no farmacêutico e dos suplementos nutricionais é mais do que comum a pressão do mercado, de grandes empresas que tentam empurrar a comercialização de remédios e suplementos nutricionais. Há uma relação antiga e viciada de aproximação de empresas que pagam bônus, vantagens, prêmios a quem mais vender seus produtos, precise o paciente/cliente ou não. O que mais importa, é a venda.

É o Nutricionista que vende BCAA e suplemento, é o endocrinologista que prescreve remédio em farmácia de manipulação sempre ganhando sua comissão, é o médico que tem relação próxima às empresas que pedem que ele prescreva sua marca, não a da concorrência. O profissional só tem a ganhar quando entra no jogo. Você pode acreditar que não há problema algum nisso, que a boa-fé é suficiente. Mas você tem também o direito de achar que há unicórnios e gnomos escondidos pela mata.

Sabendo e reconhecendo um problema, a pessoa (ou entidade) teria que buscar fugir dessas armadilhas. A entidade não parece não muito preocupada com isso. Pelo contrário. O difícil é encontrar uma entidade que seja tão fiel aos seus parceiros comerciais.

Em sua mensagem a mim, eles deixam claro que são sem fins lucrativos. Eu gosto de dinheiro. Tenho mais do que certeza que eles também gostam muito. Não há problemas, é uma questão individual, de cada um. Agora o COMO você ganha, isso já nos importa um pouco mais.

A ABESO conta constantemente com gordos patrocinadores da indústria farmacêutica. Há erro legal nisso? Não mesmo! É correto? Aí já não podemos dizer com essa segurança. Mas se eles não vendem remédio, estaria OK, certo? Pois é, eles não vendem, muitos de seus associados indiretamente sim. Trabalhei por muitos anos com patrocínios de eventos e atletas, o que você mais busca é um patrocinado como a ABESO, defenda seu discurso, sua marca, seus produtos, sua onipresença. Será que colocando tanto dinheiro na entidade o patrocinado consiga aquilo que quer? Pois pode estar certo, a ABESO é preocupantemente fiel aos seus parceiros comerciais.

“(…) não dá para imaginar o tratamento da obesidade sem os medicamentos que agem no Sistema Nervoso Central em decorrência da fisiopatologia da obesidade” (diretora da entidade)

Quando a Anvisa proibiu a venda de anfetaminas, uma classe de inibidores de apetite, “diferentes entidades” participaram de audiências públicas e encontros para sensibilizar parlamentares a defender o uso desses remédios, você a esta altura já deve imaginar qual foi uma das mais ativas… é a tal da fidelidade a quem te apoia financeiramente. O alívio de outra diretora era tão grande que ela disse: “A gente fica na torcida”.

Como não ficar?

É uma defesa sistemática. Outra diretora em entrevista, quando perguntada sobre tratamento da diabetes foi taxativa: medicamentos e insulina. Veja bem, sobre uma doença de intolerância a um nutriente NÃO essencial ela NÃO citou a mais básica e fundamental das abordagens, a dieta restritiva.

Outros 2 diretores seguem o discurso, ou defendendo amplamente os medicamentos ou dando curso (sobre medicamentos, dieta parece ser tolice).

O padrão às vezes não é sobre produtos farmacêuticos, mas sobre patrocinador. Veja a fala abaixo de outro diretor falando sobre o refrigerante mais famoso do mundo, que possui uma parceria comercial com a entidade:

“Estamos muito felizes em nome da ABESO, pela iniciativa de uma empresa que tem oferecido cada vez mais bebidas de baixas calorias para aqueles que precisam aderir a uma dieta, o que facilita a mudança no estilo de vida”

Mais um dígito no contrato e acho que consigo imaginar o abraço fraterno do diretor agradecendo efusivamente pelos refrigerantes existirem, caso contrário emagrecer seria algo muito difícil, quiçá inviável.

Veja, bem… não há em NENHUM desses casos ABSOLUTAMENTE NADA que infrinja a lei. Não há crimes, não há ilegalidade, não há sequer abusos puníveis. Nem sempre o legal é o certo a se fazer, nem sempre o ilegal é o errado. Há 2 jeitos de você tratar alguém, como um adulto entendedor de como as coisas funcionam na vida real ou como pessoas ingênuas, inocentes, quase burras. Se a pessoa não vê problemas nesses discursos que listei aqui, tudo bem. Está no seu direito.

Para mim a questão é o eterno e enorme problema da dissociação de interesses na saúde. Sabemos quem ganha quando produz e vende mais produtos, sabemos também quem ganha o bônus por vender mais aos pacientes. Mas sabemos muito bem quem exclusivamente perde (em dinheiro e saúde) por consumir remédio a mais.

O que ganha a ABESO aproximando remédios de seu público? Por que em seu principal simpósio de obesidade ela traz representantes das patrocinadoras a falar diretamente aos profissionais? Quem ganha? Quem perde?

Eu sei quem ganha e quem perde. A entidade finge parecer não saber. Mas o comportamento dela defendendo os interesses dos parceiros comerciais é de uma fidelidade arrebatadora. O problema é quem paga por isso…

Seria interessante, pois, ver o que a entidade tem a dizer sobre esse tipo de relação que, se não ilegal, cora de vergonha o rosto dos mais corretos.

Ainda que sem infringir a lei, suas diretrizes nutricionais citadas amparadas em fé e estudos sem rigor, feita em uma entidade que diz estudar o assunto; as repetidas e algumas graves (do ponto de vista de saúde) declarações feitas por diretores da ABESO, sua aproximação vantajosa com entidades que lucram quando um terceiro consome seus produtos indicados por profissionais de saúde me fizeram dizer que seu comportamento é acintoso (por provocar aborrecimento), é promíscuo (por conter imoralidade ou degradação moral), é desavergonhada (de maneira a não sentir arrependimento ou constrangimento por seus atos condenáveis) e é condenável.

Ainda que seja tudo isso a ABESO NÃO é VENDIDA! *e por respeito à entidade esta é a última vez que uso aqui a palavra em questão

Também por trabalhar com palavras, é com certa vergonha que admito que fui precipitado, equivocado, impulsivo no manejo das palavras a serem usadas na ocasião.

Por isso venho aqui humildemente, encarecidamente e atenciosamente pedir retratação por uso de tal palavra, que já foi devidamente retirada do texto original. As demais ficam.

Ainda que seja minha opinião, ela não deveria JAMAIS ter saído do campo pessoal para um texto aberto. Eu não tinha o direito de acusar assim, e por isso me retrato. Não importa qual o comportamento da ABESO, isso nunca, JAMAIS me deu motivo para insinuar ou afirmar que tenham tido tal repreensível atitude.

Peço sinceras desculpas. Estou, acreditem, arrependido de seu uso.

E para terminar, peço algo.

Em sua nota inicial a entidade disse que se não me retratasse, “isso implicaria a adoção de medidas administrativas, cíveis e criminais cabíveis visando a recomposição dos danos materiais e morais impostos”.

Então peço que nossa conversa e desavenças permaneçam no campo das ideias. Eu não sei de vocês (e vocês de mim) se respeitam idosos, se pagam imposto ou reciclam lixo. Isso não me importa. Minha diferença com vocês é enorme, quase completa, mas fica no campo das ideias. Vocês não gostam do que eu falo. Eu ignoro o que recomendam na Nutrição. Mas que, de novo, fique no campo das ideias. A gente sempre acaba descobrindo pelo comportamento do outro aquilo que ele mais quer, o que mais deseja. Neste momento estou há quase 2 anos em uma pendenga judicial com o CRN e o Sindicato que me pedem R$500.000. Sem jamais debaterem ideias, a sanha deles por esse dinheiro (e das anuidades) deixa-me claro o que eles mais querem. É sempre assim. Que com vocês a conversa seja diferente. É o que eu peço. Nem peço que gostem de mim, porque se uma entidade qualquer de Nutrição gostasse, é porque eu estaria fazendo muita coisa errada mesmo.

Era isso!

Mais uma vez, desculpe-me pela tal palavra já devidamente retirada.

 

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Uma ideia sobre “NOTA DE RETRATAÇÃO.

  1. Adolfo Neto

    Se a ABESO acha que esta nota de retratação a ajuda, está muito enganada.
    Isto é CENSURA, ABESO.
    Nem vou ler tudo o que você escreveu, Balu.
    Apenas reforço e apoio o que você escreveu aqui:
    “Então peço que nossa conversa e desavenças permaneçam no campo das ideias.”

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