Arquivo mensal: março 2017

Colesterol LDL e Risco Cardíaco: o que é fato, o que é delírio médico coletivo

São frequentes as dúvidas que chegam de pessoas sobre resultados de exames de sangue e indicadores como colesterol HDL e LDL. Todos querem saber se irão morrer nos próximos dias por causa de um LDL elevado. Eu tenho uma abordagem um tanto diferente sobre hemogramas: se você não quer se preocupar com seus valores de colesterol A MELHOR COISA que pode fazer é simplesmente NÃO medi-los.

Parece extremo? Minha argumentação se sustenta em basicamente 3 pontos. O primeiro é que é de pouca ajuda você fazer testes quando a absoluta MAIORIA de Médicos E Nutricionistas é atualmente INCAPAZ de tirar informação útil dos dados. É como você pedir ao mesmo médico que leia “Crime e Castigo” no idioma original de Fiodor Dostoievski. Ele não entende absolutamente nada do que vai ali escrito. Você ficaria surpreso se soubesse que mesmo entre especialistas os conceitos são ultrapassados e equivocados como mostram diversas pesquisas entre eles ou mesmo os portais de associações como SBEM e afins. Do que serve então você dar números para quem não sabe ler?

Meu segundo ponto é que aquilo que os exames atuais oferecem fazendo uso dos valores ideais de referência nos dão pouca informação de nosso verdadeiro risco cardíaco. Por quê?

E aí chegamos ao terceiro ponto que é o fato do cálculo do colesterol LDL ser indireto, ele é estimado, não calculado! Por fim, seus valores ótimos são meros chutes, sem maior embasamento!

COLESTEROL LDL e RISCO CARDÍACO

O colesterol LDL é apenas um dos marcadores de risco. Não é o colesterol total alto, ou mais precisamente o colesterol LDL que prediz um maior risco cardíaco, mas alguns outros marcadores que são: baixo colesterol HDL, alta concentração de triglicerídeos (TG), alta glicemia e aumento das partículas pequenas e densas do colesterol LDL (já falaremos sobre isso!). Focar nos valores totais de colesterol e/ou apenas nos níveis de sua fração LDL tem sido um dos grandes erros da cardiologia há muito tempo. Hoje, por exemplo, sabemos que 2/3 das pessoas com entradas em hospitais sob suspeita de enfarte do miocárdio tem síndrome metabólica, mas 75% das pessoas apresentam colesterol em concentração dentro da normalidade. Não é só isso! O colesterol LDL por sua vez parece que visto isoladamente tampouco é um melhor marcador. Essa é a conclusão feita por um levantamento com 231.986 pacientes hospitalizados que possuíam níveis de LDL adequados. Hoje sabe-se que a maioria das pessoas que tem um ataque cardíaco NÃO tem altos níveis de colesterol LDL.

Chamar o colesterol LDL de “colesterol ruim” é um dos mais básicos sinais de que o profissional de saúde que assim o faz pouco conhece sobre o assunto. NÃO EXISTE COLESTEROL RUIM. Não faz sentido do ponto de vista evolutivo que um corpo produza e mantenha circulante em condições normais algo que seja uma espécie de veneno para sua própria sobrevivência. O leite materno possui muito colesterol e ninguém no uso de suas faculdades mentais sugere que a amamentação seria uma tentativa da mãe de envenenar um bebê ou que leite materno seja um mau alimento.

O modo como vilanizamos o colesterol é como culpar um bombeiro por um incêndio. Sempre que você chegar a um prédio em chamas, os bombeiros estarão lá trabalhando, mas ninguém em sã consciência irá sugerir que eles são os causadores, os agentes do fogo. Sempre que se chega a uma cena de assassinato, estarão lá policiais, mas isso não faz deles os suspeitos primários. Com o colesterol não deixa de ser parecido. Um colesterol LDL demasiadamente alto é um indicador de que algo está errado. Ele serve como sinal, não causa! Quando enxergamos à frente viaturas com giroflex ligado, nos afastamos porque aquilo é um sinal de que algo está errado, não que policiais estejam fazendo arrastões! Médicos e Nutricionistas que querem controlar consumo de colesterol acham que acabando com os bombeiros nunca mais teremos incêndios. Precisamos assim entender que o consumo de colesterol NÃO faz necessariamente mal, este é um mito criado nos anos 60 e 70 NUNCA, JAMAIS cientificamente provado.

O que chamamos de colesterol HDL ou LDL, os dois mais conhecidos, são na verdade duas lipoproteínas que carregam colesterol pela corrente sanguínea. É interessante imaginar, ainda que de forma meio simplista e reducionista, a fração LDL como sendo um táxi fazendo o trajeto do fígado ao restante do corpo carregando consigo colesterol. E pensemos na versão HDL fazendo o sentido inverso, trazendo o colesterol para o fígado metabolizá-lo.

Pense na hipótese desse “táxi” LDL ficar “preso no trânsito” com seu “passageiro” colesterol (*percebeu?! Você “come“ colesterol, mas não LDL). Esse tempo excedente no tráfego acaba por ultrapassar o tempo que o antioxidante que ele carrega junto consegue estabilizar o conjunto, seu passageiro. Uma vez que isso acontece, há oxidação (estou simplificando todo o processo para explicar o fenômeno) e nosso sistema imune começa a ver essa combinação de “táxi LDL ocupado e sem antioxidante” como um ser estranho, um invasor. Isso aumenta a chance de uma inflamação e uma série de outros riscos. Ou seja, muitos táxis LDL´s circulantes (altos níveis de colesterol LDL) são um risco porque em maior número, maior a chance de ultrapassar o tempo e assim se oxidar gerando inflamações, entre elas, nos vasos. Esse é o perigo de uma taxa alta da fração LDL. Mas vale reforçar que uma substância essencial à nossa vida não pode ser taxada de ruim. Reforço: este alto LDL é sinal de que algo está errado, não que seja a causa.

Não é só isso. A preferência dos profissionais de saúde pela busca de níveis baixos para o colesterol LDL sobre uma tentativa, por exemplo, de aumentar os níveis do colesterol HDL de um paciente, parece estar menos relacionada com evidências ou razões médicas e mais motivada por razões bem mais comerciais. Esse enfoque na fração LDL pode se explicar pelo fato da indústria farmacêutica ter já conseguido criar medicamentos que reduzam esse indicador, mas não tenha obtido sucesso no desenvolvimento de um medicamento que aumente a fração HDL sem incluir sacrifícios outros, como dieta, exercícios e hábitos mais saudáveis. *aqui fica aberto um convite, passeie nos sites das sociedades médicas das áreas relacionadas e veja quem são seus gordos parceiros comerciais…

Para piorar, há uma série de estudos mostrando que baixos níveis de colesterol estão ligados a uma maior mortalidade e indicando que alto colesterol parece não ser um problema. Ou seja, estamos falando de um cenário que é muito mais complexo do que o de apenas um ou dois indicadores ou frações vistas isoladamente. Outro ponto solenemente ignorado é que a fração LDL do colesterol, apesar de “ser uma só”, pode ter perfis diferentes. Tê-la em sua maioria nas versões pequenas e densas pode ser perigoso enquanto sua versão maior passa a ser interessante e benigno.

Algo que é muito importante é que desde mais ou menos 1988, através das pesquisas de Ronald Krauss, sabe-se que o LDL teria uma espécie de lado B. Essa sua versão B, vamos chamar assim, é pequena e densa, entrando nas paredes dos vasos criando os bloqueios perigosos. Porém, uma versão A do mesmo colesterol LDL, é uma partícula maior e é associada com um menor risco cardíaco. Esse é mais outro motivo por não haver razão alguma para se chamar a fração LDL de colesterol ruim, já que suas ações quando nocivas ao organismo não são consequências intrínsecas de uma característica, mas de uma concentração de uma versão em quantidades indesejadas. Uma vez que o LDL é essencial à vida, não podemos taxar de ruim como se zerar a sua quantidade significasse uma vitória da saúde.

Estudos ainda apontam que o consumo de gordura saturada (presente em alimentos como ovos, manteiga, carne vermelha e laticínios integrais) pode mesmo aumentar os níveis de colesterol LDL, porém ele muda o perfil, aumentando os níveis da fração LDL do tipo A, que reduz o risco cardíaco. Isso além de aumentar ainda os níveis do colesterol HDL, outro protetor cardíaco. Já o consumo de carboidratos refinados, aumenta os níveis da fração LDL do tipo B, ou seja, pioram o perfil do colesterol LDL circulante e ainda diminui a quantidade da fração HDL, diminuindo essa proteção cardíaca natural do organismo.

Se você nunca tinha ouvido falar das versões A e B do LDL, não se preocupe! Há enorme chance que seu médico também não. Por outro lado, pouco adianta você querer um exame que mostre o seu perfil lipídico do LDL (se A ou B). Relembro: não somos com os exames comerciais convencionais capazes sequer de medir o LDL diretamente (ele é estimado), muito menos seus 2 perfis (A e B). A falta de exames acessíveis hoje explica parte do porquê hoje compreendemos tão mal os hemogramas. No final dos anos 50, por exemplo, o nível de TG era um marcador muito mais difícil de se conseguir do que o do colesterol, poucos laboratórios conseguiam realizar a tarefa. E antes de ser possível mensurar as diversas frações do colesterol (LDL, HDL, VLDL…), tomou-se as partes pelo todo, levou-se assim muito tempo para entendermos as diferenças fundamentais no risco cardíaco que desempenham os diferentes números de HDL e LDL. Com o triglicerídeo parece ter acontecido um pouco disso e ele “chegou depois” do colesterol total já ter ganho toda sua fama e sua condição de protagonista nas doenças cardíacas já estava montada. Por isso ainda vai também levar muito tempo até começarmos a usar as versões do LDL.

Agora sim… TG e RISCO CARDÍACO.

O valor de TG elevado é um marcador de maior risco cardíaco. Quando o valor do TG sobe acima dos 100mg, por exemplo, seu risco de sofrer um ataque cardíaco sobe linearmente. Quando está em 150, por exemplo, você recebe um alerta do seu médico cardiologista. Em 175 o risco é “grande”. Um nível de TG elevado é quase um indicador da viscosidade do sangue. Quando ele sobe, o colesterol HDL, um protetor cardíaco, tende a cair.

Por isso, um indicador que é MUITO importante e constantemente ignorado é a relação dos valores TG e HDL. Se dividindo o TG pelo HDL esse valor estiver menor que 1, isso representa um baixo risco cardíaco (ex: 80:80= 1). Em um exemplo de 160:40 teríamos uma relação igual a 4, significando um alto risco.

Apesar de ser uma relação ignorada por muitos profissionais (médicos e nutricionistas), essa relação TG:HDL é apoiada por 5 estudos de 1977 do NIH que observou que, quando um sobe, o outro desce e vice-versa. Gary Taubes em seu Good Calories Bad Calories fala que a relação de comportamento invertido é observada nos 5 estudos em todas as faixas etárias de 45 anos a octogenários, homens e mulheres, sem distinção nas etnias representadas nos estudos.

Há muito tempo que vozes importantes insistiam que “quanto maior o valor (do TG), maiores os riscos de um ataque cardíaco”. Mas focamos toda a atenção (e verbas de pesquisa e propaganda) nos valores de colesterol e suas frações. Foi incrível nossa incapacidade de articular o conhecimento gerado. Ainda em 1937 os bioquímicos David Rittenberg e Rudolph Schoenheimer demonstraram que o colesterol dietético tem pouco efeito no colesterol sanguíneo. Nunca refutando essa demonstração, a U.S. Dietary Guidelines até pouco tempo atrás recomendava um limite de ingestão de colesterol dietético de 300mg por dia, o equivalente a menos de dois ovos. Depois deles, em 1950, o pesquisador John Gofman descobre várias substâncias circulantes no sangue, entre elas o colesterol LDL e quase 70 anos atrás ele já afirmava que “o colesterol total sanguíneo é um perigosamente pobre preditor de doenças cardíacas”.

Esta nossa obsessão com o colesterol é uma insistência em um erro que prega que o maior consumo de gordura saturada estaria correlacionado com maior risco cardíaco. O delírio da comunidade é tão gigantesco que ao se olhar atentamente e com maior rigor ao estudo não-conclusivo dos anos 60 que deu origem a esse temor, temos que um menor consumo de colesterol prova justamente que o LDL NÃO tem correlação com risco cardíaco!

Nossa teimosia (não intencional ou a patrocinada) diante de tantas evidências garante com certa segurança que nosso temor com o LDL, que teve um passado brilhante, ainda tem um futuro muito promissor.

Infelizmente.

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A Nutrição, assim como a vida, é feita de escolhas

Um estudo publicado recentemente no Journal of the American College of Cardiology veio corroborar o encontrado em tantos outros levantamentos. Feito com mais de 900 pessoas acima do peso, basicamente dividiu-se os indivíduos em 3 grupos. Para um deles eles davam orientação (aconselhamento) e um guia alimentar (Health Canada Food Guide). Um segundo grupo não recebeu nenhuma orientação, porém, recebia semanalmente uma cesta com os alimentos recomendados no guia alimentar em questão. Por fim, um terceiro grupo recebia ambos: orientação (com guia alimentar) e a cesta semanal com os alimentos dito saudáveis.

Deixemos um pouco de lado que as atuais recomendações nutricionais oficiais no emagrecimento se baseiam em fé, não em ciência ou evidências. O que vale destacar é que depois de 6 meses houve nenhuma ou pouca diferença no peso, na cintura e na pressão arterial entre os 3 grupos. Para ser mais preciso, a perda média de peso foi de somente 1kg em 6 meses! Isso derruba MUITO do que se prega atualmente na Saúde Pública: especialistas defendem que devemos educar a população e que devemos aumentar o acesso a alimentos ditos saudáveis. Sim, é difícil discordar dessa política, mas agora podemos desconfiar que isto teria impacto irrisório, praticamente nulo na saúde da população. A Nutrição mais uma vez é pega na desilusão de viver em seu mundo de esperança que não funciona na vida real…

Mas… Por que educação e acesso a alimentos saudáveis pouco ajudam?

A explicação não é fácil, é baseado mais em conceitos do que em evidências. Gosto muito de duas ideias: a do conhecimento ser subtrativo e também o da via negativa. Resumindo e adaptando os 2 de modo quase perigoso temos que é bem mais fácil sabermos com segurança o que nos faz mal do que descobrirmos o que faz bem. E é bem mais fácil, usando a via negativa, saber aquilo que gera estresse ao organismo. Sabemos que açúcar (e farináceos, e doces, e refrigerantes…) fazem mal, mas é muito difícil saber se agrião ou beterraba, por exemplo, fazem bem.

A questão da alimentação tem uma particularidade fundamental que os profissionais de saúde parecem ignorar: é uma questão somatória. Você pode ficar sem correr, ou seja, para estudar o impacto da corrida na saúde, você pode deixar um indivíduo sem correr. Mas não há como deixar alguém sem comer. Uma vez que essa pessoa vai necessariamente comer algo, entra outra variável importantíssima: a pessoa ficou com sua saúde melhor (ou pior) porque ela comeu mais verduras ou porque ela deixou de comer fast-food? É muito mais fácil entender e descobrir qual seria o vilão em um fast-food (bastaria para isso analisar indivíduos que comem somente partes componentes de um sanduíche), mas é muito mais difícil descobrir os diferentes papéis quando há trocas, ou seja, parei de comer X-Salada com refrigerante e passei a ser vegetariano. Era o milk-shake que me fazia mal ou os legumes e folhas que fazem bem?? Sabemos que o primeiro é verdadeiro, mas ainda NÃO sabemos se o segundo o é!

Dividimos alimentos em mocinhos e bandidos. Mas fazemos isso muito mal.

Hoje não surpreenderia ninguém que a resposta dos profissionais da área à pergunta acima seria que ambos: um faz mal e o outro faz bem. Mas… será mesmo?!

Eu tenho enorme dificuldade em acreditar em super-alimentos (*OK, acredito que fígado bovino, cogumelos, brócolis e ovos são quase 4 super-alimentos). Mais do que isso, tenho enorme resistência em falar que alimentos como óleo de côco ou bebidas da moda como kefir ou bulletproof coffee são bons. Porque o erro daí em diante é generalizado. Quando eu era adolescente, eu chegava a comer – sem exagero – uma dúzia de laranjas quando estava doente, pois na minha cabeça quanto mais melhor, afinal, fruta é bom, não?! Mais de uma vez atendi pessoas que consumiam colheres de óleo de côco porque “é um alimento bom”, que só tomavam cafés especiais com manteiga. Pode parecer lógico, mas há uma enorme diferença entre um alimento fazer mal e outro alimento fazer bem! E uma vez que haja alimentos que façam bem, é muito diferente achar que mais dele signifique melhor.

Já sabemos que há alimentos que mesmo em quantidades muito pequenas são ruins, mas ainda NÃO sabemos se existem muitos alimentos que sejam por essência bons. E já sabemos que mesmo esses alimentos em grande quantidade NÃO fazem “mais bem”!

A pessoa precisa saber que quando ela come 3kg de brócolis com 1kg de amora por dia, ela não terá muitas condições de comer comida sabidamente ruim (doces, refrigerantes, fast-food, alimentos processados e industrializados…) ou, na pior das hipóteses, comerá necessariamente bem MENOS de alimentos SABIDAMENTE ruins. Uma pesquisa que estudasse uma população assim, inevitavelmente concluiria que brócolis e amoras são alimentos mágicos sem perceber que é a via negativa, ou seja, é a AUSÊNCIA desses estressores em questão que nos faz bem!

Isso mais confunde do que ajuda porque sabemos que algo ruim NÃO está sendo consumido, mas identificamos como algo que não é necessariamente BOM como tal.

Atualmente acreditamos equivocadamente que alguns grupos de alimentos (principalmente frutas, legumes e grãos) são tão bons, tão saudáveis, que seriam capazes até mesmo de reverter problemas de uma má alimentação. Eu penso BEM diferente. Não só acredito que esses alimentos nem sejam assim tão bons (seriam em sua maioria no máximo neutros) como – e isso a ciência está do meu lado – eles NÃO têm a capacidade de reverter os problemas que comer mesmo quantidade pequena de açúcar e gordura trans, por exemplo, nos traz.

Hoje encaramos a Nutrição como se, por exemplo, comer quinoa (ou qualquer alimento da moda) pudesse reverter os males de fumar. Não, não consegue! Assim como o cigarro faz mal INDEPENDENTEMENTE daquilo que você consuma, temos que lembrar que NÃO HÁ COMPENSAÇÃO na Nutrição. Ou você come mal ou você come bem por não comer o mal. Não existe comer uma somatória de forma a se neutralizar.

Quando analisamos dados populacionais, podemos observar que a população obedece a recomendação de comer mais frutas e legumes. Qualquer levantamento confirma isso. Mas a população não deixou de comer também os alimentos “maus”. Como não há fruta que compense fast-food, a população adoece. Hoje consumimos suplementos de ômega-3 achando que ele fará bem (não fará). A doença está que hoje, pelo consumo dos óleos industrializados (de soja, milho, girassol ou canola) consumimos muito ômega-6. Não é a falta do 3 que faz mal, é o excesso do 6! Na Europa alguns levantamentos interessantes mostram que passaram a comer mais frutas, SEM deixar de comer comida processada. Resultado? Uma Europa obesa e doente como nunca antes. Resumo: fruta pode ser chamada de alimento bom, mas NÃO faz diretamente NADA para ajudar quando temos uma má alimentação

Podemos fazer um paralelo assim: a área da Nutrição tenta tratar uma pessoa que tem muita dor quando corre recomendando muita fisioterapia, pedindo tênis caros, tratamentos inócuos, kinesio tape e muita fé tentando descobrir a solução do problema. Um jeito BEM mais fácil de tratar essa dor é pedir que essa pessoa simplesmente não corra, que faça N outras atividades que NÃO a corrida. Se ela quiser correr, terá dor, se ela quiser seguir comendo X-Salada e bebendo cerveja diariamente, ela VAI continuar goda. É simples assim. Não importa o quanto de quinoa ou almeirão ela coma. Esses e outros alimentos não fazem necessariamente bem, mas podem evitar que você consuma (ainda mais) dos que te fazem mal.

Sabe os 900 do estudo do início do texto? Eles comeram mais comidas saudáveis, mas não deixaram de comer as porcarias. O custo fisiológico do alimento processado é maior do que qualquer quantidade de beterraba que você coma.

TIRE o agente estressor que não haverá estresse.

Não procure alimentos mágicos, eles ou não existem ou ainda não sabemos quais são.

NOTA DE RETRATAÇÃO.

Prezado(a) leitor(a),

Em conformidade e atendendo a uma notificação extrajudicial a mim enviada dias atrás pelos procuradores da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE E DA SÍNDROME METABÓLICA, a ABESO, escrevo abaixo uma mensagem de retratação por alegações que, segundo eles, eram “inverídicas” e buscavam a “atingir a honra, retirar a credibilidade e prestígio da ABESO”.

Fui pego de surpresa. Vocês sabem que não ligo a mínima para o que a ABESO diz sobre o assunto Nutrição. Acredito que a entidade tem enorme talento e competência de errar por completo no tema, do início ao fim, quando fala sobre recomendações no emagrecimento, diabetes e controle de peso. Não acho também que eles liguem muito para o que eu falo. Afinal, somos tão antagônicos, com interesses tão distantes na matéria, que nunca um diálogo seria formado espontaneamente. Porém, isso não os tira o direito legítimo de exigir o que exigem quando estão certos.

Incomodou à ABESO que em meu texto em questão eu dizia que eles possuíam um comportamento e “relação acintosa, promíscua, desavergonhada, condenável e vendida”. E em parte eles estão corretos, com a razão: eu ultrapassei o limite do razoável e do justo para com a entidade.

Recorrendo ao dicionário temos:

Acintoso: adj. Apoquentador; que provoca aborrecimento; que contraria e aborrece. Provocador;

No dia que escrevo isso, assisti no Jornal Hoje matéria explicando que o Brasil atualmente tem em sua população cerca de 60% de pessoas com sobrepeso e 20-25% de pessoas obesas. A entidade publica em seu site a 4a edição das Diretrizes Brasileiras de Obesidade (2016). A parte referente ao tratamento dietético é um equívoco científico de seu início ao fim.

A ABESO se orgulha de ser uma entidade com 500 associados (de diversas profissões) espalhados por todo o país. Fico eu imaginando a quantos obesos e doentes seu discurso não chega. A obesidade, não é preciso dizer, é um gravíssimo problema brasileiro e global. Pois as diretrizes de uma entidade que carrega em seu nome a palavra estudo, parece feito sem ele. Ou eles não estudam ou a cada linha que leem, entendem tudo pelo avesso. A obra parece feita por um estudante que em seu trabalho “enche linguiça” sem relacionar diretamente as referências do que vai dito, porque sabe que um professor mal pago e demasiado atarefado não se dará ao trabalho de verificar tudo.

Conseguiram. O que vai na parte em questão é tão pobre do ponto de vista de evidências e rigor científico, que eu prefiro acreditar que a disposição das referências, na verdade falta delas, é para deixar claro que no assunto eles se baseiam em fé, esperança, hipóteses e ciência sem rigor e muito mal feita. Se você tentar verificar o que é dito, se verá de mãos atadas. Sem poder recorrer às bases de tal pensamento retrógrado, tal como eles, vai ter que aplicar a fé. Tudo isso em u problema seríssimo.

Mesmo dentro da diretoria da entidade, reduzir obesidade a uma questão matemática é um método, não a exceção. Um dos seus diretores disse que (por ter 4 calorias por grama, igual o açúcar) “exagerar no consumo de proteína – em forma de whey protein, por exemplo – engorda”. Essa fala, vindo de alguém importante lá dentro mostra o nível raso do debate do tratamento da obesidade.

Ainda segundo o dicionário, temos:

Promíscuo: (…) Que abarca elementos desonestos; que contém imoralidade ou degradação moral.

Desavergonhadamente: De modo sem-vergonha; de maneira a não sentir arrependimento ou constrangimento por seus atos condenáveis: mentia desavergonhadamente. Descaradamente; de modo descarado; em que há atrevimento: comportava-se desavergonhadamente.

Condenável: adj. Que se consegue condenar; que merece ser condenado; suscetível ou digno de censura; que pode ou deve receber críticas; censurável ou repreensível.

No mercado do emagrecimento, no farmacêutico e dos suplementos nutricionais é mais do que comum a pressão do mercado, de grandes empresas que tentam empurrar a comercialização de remédios e suplementos nutricionais. Há uma relação antiga e viciada de aproximação de empresas que pagam bônus, vantagens, prêmios a quem mais vender seus produtos, precise o paciente/cliente ou não. O que mais importa, é a venda.

É o Nutricionista que vende BCAA e suplemento, é o endocrinologista que prescreve remédio em farmácia de manipulação sempre ganhando sua comissão, é o médico que tem relação próxima às empresas que pedem que ele prescreva sua marca, não a da concorrência. O profissional só tem a ganhar quando entra no jogo. Você pode acreditar que não há problema algum nisso, que a boa-fé é suficiente. Mas você tem também o direito de achar que há unicórnios e gnomos escondidos pela mata.

Sabendo e reconhecendo um problema, a pessoa (ou entidade) teria que buscar fugir dessas armadilhas. A entidade não parece não muito preocupada com isso. Pelo contrário. O difícil é encontrar uma entidade que seja tão fiel aos seus parceiros comerciais.

Em sua mensagem a mim, eles deixam claro que são sem fins lucrativos. Eu gosto de dinheiro. Tenho mais do que certeza que eles também gostam muito. Não há problemas, é uma questão individual, de cada um. Agora o COMO você ganha, isso já nos importa um pouco mais.

A ABESO conta constantemente com gordos patrocinadores da indústria farmacêutica. Há erro legal nisso? Não mesmo! É correto? Aí já não podemos dizer com essa segurança. Mas se eles não vendem remédio, estaria OK, certo? Pois é, eles não vendem, muitos de seus associados indiretamente sim. Trabalhei por muitos anos com patrocínios de eventos e atletas, o que você mais busca é um patrocinado como a ABESO, defenda seu discurso, sua marca, seus produtos, sua onipresença. Será que colocando tanto dinheiro na entidade o patrocinado consiga aquilo que quer? Pois pode estar certo, a ABESO é preocupantemente fiel aos seus parceiros comerciais.

“(…) não dá para imaginar o tratamento da obesidade sem os medicamentos que agem no Sistema Nervoso Central em decorrência da fisiopatologia da obesidade” (diretora da entidade)

Quando a Anvisa proibiu a venda de anfetaminas, uma classe de inibidores de apetite, “diferentes entidades” participaram de audiências públicas e encontros para sensibilizar parlamentares a defender o uso desses remédios, você a esta altura já deve imaginar qual foi uma das mais ativas… é a tal da fidelidade a quem te apoia financeiramente. O alívio de outra diretora era tão grande que ela disse: “A gente fica na torcida”.

Como não ficar?

É uma defesa sistemática. Outra diretora em entrevista, quando perguntada sobre tratamento da diabetes foi taxativa: medicamentos e insulina. Veja bem, sobre uma doença de intolerância a um nutriente NÃO essencial ela NÃO citou a mais básica e fundamental das abordagens, a dieta restritiva.

Outros 2 diretores seguem o discurso, ou defendendo amplamente os medicamentos ou dando curso (sobre medicamentos, dieta parece ser tolice).

O padrão às vezes não é sobre produtos farmacêuticos, mas sobre patrocinador. Veja a fala abaixo de outro diretor falando sobre o refrigerante mais famoso do mundo, que possui uma parceria comercial com a entidade:

“Estamos muito felizes em nome da ABESO, pela iniciativa de uma empresa que tem oferecido cada vez mais bebidas de baixas calorias para aqueles que precisam aderir a uma dieta, o que facilita a mudança no estilo de vida”

Mais um dígito no contrato e acho que consigo imaginar o abraço fraterno do diretor agradecendo efusivamente pelos refrigerantes existirem, caso contrário emagrecer seria algo muito difícil, quiçá inviável.

Veja, bem… não há em NENHUM desses casos ABSOLUTAMENTE NADA que infrinja a lei. Não há crimes, não há ilegalidade, não há sequer abusos puníveis. Nem sempre o legal é o certo a se fazer, nem sempre o ilegal é o errado. Há 2 jeitos de você tratar alguém, como um adulto entendedor de como as coisas funcionam na vida real ou como pessoas ingênuas, inocentes, quase burras. Se a pessoa não vê problemas nesses discursos que listei aqui, tudo bem. Está no seu direito.

Para mim a questão é o eterno e enorme problema da dissociação de interesses na saúde. Sabemos quem ganha quando produz e vende mais produtos, sabemos também quem ganha o bônus por vender mais aos pacientes. Mas sabemos muito bem quem exclusivamente perde (em dinheiro e saúde) por consumir remédio a mais.

O que ganha a ABESO aproximando remédios de seu público? Por que em seu principal simpósio de obesidade ela traz representantes das patrocinadoras a falar diretamente aos profissionais? Quem ganha? Quem perde?

Eu sei quem ganha e quem perde. A entidade finge parecer não saber. Mas o comportamento dela defendendo os interesses dos parceiros comerciais é de uma fidelidade arrebatadora. O problema é quem paga por isso…

Seria interessante, pois, ver o que a entidade tem a dizer sobre esse tipo de relação que, se não ilegal, cora de vergonha o rosto dos mais corretos.

Ainda que sem infringir a lei, suas diretrizes nutricionais citadas amparadas em fé e estudos sem rigor, feita em uma entidade que diz estudar o assunto; as repetidas e algumas graves (do ponto de vista de saúde) declarações feitas por diretores da ABESO, sua aproximação vantajosa com entidades que lucram quando um terceiro consome seus produtos indicados por profissionais de saúde me fizeram dizer que seu comportamento é acintoso (por provocar aborrecimento), é promíscuo (por conter imoralidade ou degradação moral), é desavergonhada (de maneira a não sentir arrependimento ou constrangimento por seus atos condenáveis) e é condenável.

Ainda que seja tudo isso a ABESO NÃO é VENDIDA! *e por respeito à entidade esta é a última vez que uso aqui a palavra em questão

Também por trabalhar com palavras, é com certa vergonha que admito que fui precipitado, equivocado, impulsivo no manejo das palavras a serem usadas na ocasião.

Por isso venho aqui humildemente, encarecidamente e atenciosamente pedir retratação por uso de tal palavra, que já foi devidamente retirada do texto original. As demais ficam.

Ainda que seja minha opinião, ela não deveria JAMAIS ter saído do campo pessoal para um texto aberto. Eu não tinha o direito de acusar assim, e por isso me retrato. Não importa qual o comportamento da ABESO, isso nunca, JAMAIS me deu motivo para insinuar ou afirmar que tenham tido tal repreensível atitude.

Peço sinceras desculpas. Estou, acreditem, arrependido de seu uso.

E para terminar, peço algo.

Em sua nota inicial a entidade disse que se não me retratasse, “isso implicaria a adoção de medidas administrativas, cíveis e criminais cabíveis visando a recomposição dos danos materiais e morais impostos”.

Então peço que nossa conversa e desavenças permaneçam no campo das ideias. Eu não sei de vocês (e vocês de mim) se respeitam idosos, se pagam imposto ou reciclam lixo. Isso não me importa. Minha diferença com vocês é enorme, quase completa, mas fica no campo das ideias. Vocês não gostam do que eu falo. Eu ignoro o que recomendam na Nutrição. Mas que, de novo, fique no campo das ideias. A gente sempre acaba descobrindo pelo comportamento do outro aquilo que ele mais quer, o que mais deseja. Neste momento estou há quase 2 anos em uma pendenga judicial com o CRN e o Sindicato que me pedem R$500.000. Sem jamais debaterem ideias, a sanha deles por esse dinheiro (e das anuidades) deixa-me claro o que eles mais querem. É sempre assim. Que com vocês a conversa seja diferente. É o que eu peço. Nem peço que gostem de mim, porque se uma entidade qualquer de Nutrição gostasse, é porque eu estaria fazendo muita coisa errada mesmo.

Era isso!

Mais uma vez, desculpe-me pela tal palavra já devidamente retirada.

 

Quando Esquimós dão bola à Nutrição…

É sempre importante, diria eu fundamental, estudar Nutrição sem NUNCA tirar o pé da questão evolutiva, histórica. No e-bookO Nutricionista Clandestino” (e na versão impressa aqui) listo alguns casos de povos que se alimentavam de extremos, sem NENHUMA consequência negativa à saúde. E por que seria importante estudar ou saber isso? Pois temos na história povos que comiam enormes quantidades de gorda carne vermelha sem sofrer problemas cardíacos.

E todo nosso medo de carne vermelha (na verdade por falta de provas esse medo passou a ser gordura, depois gordura saturada e depois colesterol) vem de associações pobres, frágeis que não encontram nenhum suporte em uma análise bem-feita. Será no futuro reconhecidamente como uma das maiores vergonhas da Nutrição, uma área que se considera ciência, mas que é hoje em grande parte de suas diretrizes, apenas algo livre de evidências, é assim apenas uma crença sem um Deus a louvar.

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Na verdade louvam. A Nutrição tem seu demônio (a gordura saturada) e tem no carboidrato, um nutriente não-essencial à vida humana, o seu improvável herói.

Pois agora pelas mãos de pesquisadores russos nos chega que 2 povos na Sibéria, que por séculos se alimentavam basicamente de carne gorda e de peixe, fizeram involuntariamente mudanças em suas dietas. Qualquer diretriz nutricional diria para os Nenets e Khanty consumirem menos gordura saturada, menos colesterol e mais carboidratos.

Agora eles passaram a comer mais carboidrato. Resultado?

esquimo

Eis que aparecem os primeiros problemas de obesidade nesse povo Ártico!

Já expliquei como nossas avós são melhores que os Nutricionistas. O tempo sempre nos mostra o que é melhor: uma dieta de séculos ou teorias de 40 anos JAMAIS provadas, NUNCA antes testadas?

Quer engordar? Quer adoecer? Fácil! Ouça e siga com atenção o que um Nutricionista tradicional (o que segue as diretrizes) tem a dizer!