Arquivo mensal: novembro 2016

Sobre Dieta Personalizada e Equilíbrio

Uma pesquisa recente no PROTESTE fez um bom barulho. Basicamente sua conclusão era: dietas prescritas por nutricionistas podem não ser confiáveis. Antes de questionar os erros, entidades de classe como o CRN-3 ou o CFN fizeram o que se espera deles: atacaram sem reconhecer qualquer culpa própria. É só para isso mesmo que eles funcionam. Se engana quem pensa que eles têm alguma preocupação que seja com um paciente. *a pesquisa acabou em uma entrevista minha no jornal O Tempo que você pode ler aqui.

O irônico disso tudo é que parte da reclamação está no fato das dietas serem as mesmas a todos ainda que com problemas distintos. Como até relógio quebrado acerta duas vezes ao dia, o problema não é o remédio, mas quem o recebe.

O erro na Nutrição não está no discurso mentiroso e ignorante das entidades dizendo que a vantagem de um nutricionista é que ele irá prescrever um cardápio individualizado. Alguém com problema não quer solução única, que só ele tenha. Um doente quer antes de tudo um remédio, ainda que o mesmo funcione a todos!

Imagine a Medicina tendo que inventar um remédio exclusivo a cada doente! Imagine!

Imagine um treinador tendo que criar do zero treinamento a cada novo corredor. Imagine!

Isso não existe. A Nutrição dá o mesmo remédio que não funciona a (quase) ninguém, e é uma Ciência que está tão nas trevas porque entre outras coisas erra em não saber sequer identificar que seu problema não é o remédio ter que ser único, mas ele não funcionar! A abordagem de emagrecimento com redução calórica, quebrada em várias refeições ao dia (de 3 em 3 horas) e com baixa gordura é algo que estudo após estudo se mostra se basear na fé de quem se diz especialista, mas que se baseia na esperança e na boa vontade.

Não só o foco (individualização e não o remédio em si) está tão errado, como ele mesmo parece ser sobrevalorizado. Se ninguém espera que a Medicina (ou a Farmácia) invente um remédio diferente para cada doente por que a Nutrição e a Educação Física pensam serem capazes de fazer isso a cada novo cliente? Isso parece mais uma valorização de um serviço do que necessariamente buscar uma melhora dele. Novamente é a fé do discurso suplantando a prática.

Duas recomendações da Nutrição me tiram dos nervos: dieta equilibrada e individualizada.

 

DIETA EQUILIBRADA – um erro conceitual

Sobre equilíbrio, ele só existe no delírio do nutricionista, não na natureza, no mundo real. A dieta de todos os animais é baseada em extremos, no absoluto, são radicais. Mas o nutricionista acha que nós devemos comer com equilíbrio. O interessante é que isso equivale comer 33% de carboidrato, mas esse seria um equilíbrio do mal. Esse equilíbrio não pode, então não serve. É o mundo de sonho da categoria que enxerga um animal caçando carne e depois indo buscar folhas e grãos para montar a refeição.

Tem mais. Jantar de vez em quando mousse de chocolate é um equilíbrio, mas uma vez que você defende tamanha carga de açúcar, não precisamos pagar um profissional para orientar a fazer isso. Profissionais assim se tornam inúteis. Qualquer criança pode me orientar desse jeito, a comer um pouco de tudo, ainda que faça mal à minha saúde, sem me cobrar por essa sandice. Esse tipo de Nutricionista é aquele que sequer se posiciona. E quem não se posiciona não tem o que dizer. Se não tem o que dizer é no mínimo desnecessário.

O equilíbrio torna qualquer um nutricionista. O equilíbrio torna qualquer nutricionista totalmente dispensável.

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DIETA INDIVIDUALIZADA – um sonho

Você consegue imaginar você cuidando de 3 animais da mesma raça e para cada um deles dando um cardápio diferenciado que não seja na quantidade ditada pela fome DELES? Pois é. Tem muita gente da categoria que acha que sim. Que dá para ter 3 labradores e um só comer carneiro, outro carne e legumes e um outro ração.

Dieta individualizada é aquela espuma que a gente coloca no café para poder cobrar mais. Se você faz isso, ok. Mas se você acredita nessa espuma, você é de certa forma perigoso. Um porque você acha que tem mais controle do que realmente tem. E esses são justamente os mais perigosos.

 

A VOX veio com um artigo recente falando sobre dietas personalizadas. Fala de iniciativas que prometem (e não entregam) aquilo que nutricionistas dizem fazer. De duas uma: em breve podemos trocar uma consulta por um aplicativo gratuito no Google Play ou Apple Store, e a categoria desanda, ou ninguém desses entrega o que promete. Eu acho que ninguém entrega, mas a categoria não precisa necessariamente desandar.

Se você juntar 1.000 caboclos, homens, caucasianos, fisicamente ativos, entre 20 e 30 anos, com 70kg (+/-15kg) querendo correr uma maratona podendo seguir UM treino único, com certa segurança podemos dizer que mais de 80% irá melhorar suas marcas. Ponto. Nenhum treinador de grupo vai negar isso, que sabemos uma recomendação populacional de atividade física que tenha resultado positivo na média de uma população. Aqui temos que o esporte SABE o que funciona para o TODO (população) e aprende o que NÃO funciona para o indivíduo. É MUITO mais fácil, assim, acertarmos a população que o indivíduo, por uma questão de individualidade biológica, por uma questão de eliminação já tentada ao longo da história!

O mesmo na Medicina. Mil doentes. Aplique UM remédio em dose igual, e você sabe que a a maioria irá se curar.

Já na Nutrição, a população atual vem SEGUINDO as recomendações de menos gordura, menos calorias, mais exercício, menos carne, menos gordura saturada, mais frutas… (*essa afirmação você encontra respaldo nos levantamentos populacionais mais sérios mundo afora). PORÉM, ainda que seguindo, estamos cada vez mais gordos. A Nutrição, que NÃO sabe orientar no TODO, acredita que saberá guiar no individual, que lembremos, é mais difícil.

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A Nutrição ganharia MUITO mais se parasse com a tese sem fundamento de que sabe o que é melhor para um indivíduo quando ela ainda não descobriu nem entendeu o que funciona para a população. Ela só conseguirá chegar mais perto daquela, na hora que tiver dominado esta.

Por isso que prometer dieta personalizada e dieta equilibrada diz muito sobre o que o seu nutricionista sabe sobre como funciona Nutrição.

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O açúcar pode ser vilão, mas é a fala do médico brasileiro é que é sintomática!

O UOL está longe de ser uma fonte minha para informação quando o assunto é Nutrição. Mas a matéria que saiu dias atrás sobre colesterol, gordura e açúcar é um primor! Nela estão ao menos 2 nomes essenciais para entendermos melhor a questão (Robert Lustig e Ancel Keys) e ao menos 3 estudos fundamentais!

Basicamente a reportagem fala sobre a culpa precipitada que a gordura levou como responsável nas doenças cardíacas (falo melhor aqui). Resumidamente, houve uma conclusão baseada em achismo, ciência malfeita, ciência questionável (por parte de Ancel Keys) e sobreposição de lógica (“se a artéria entupida está bloqueada com gordura, comer gordura deve ser a causa”).

A ótima Zoe Harcombe diz uma recomendação da qual eu compartilho: se você não quer se preocupar com o colesterol, não o meça. Ele confunde e você não consegue analisar uma informação de forma dieta que hoje sabemos ser fundamental (o tipo do seu LDL). Podemos dizer que hoje o colesterol é superestimado em indivíduos normais ou não.

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Mas a comunidade médica e de nutricionistas é tão viciada, é tão fiel às suas crenças que não há pesquisa suficientemente benfeita ou em tamanho tal que os remova daquilo que eles tiveram nas aulas da faculdade sem questionar.

Nada (nada!) é mais sintomático do que uma jornalista enfileirar o raciocínio fundamentando com argumentos usando um dos profissionais mais pertinentes da atualidade (Lustig) e ter que ouvir o contraponto de um médico brasileiro. As falas de Lustig ainda que contendo opinião são sempre feitas com suporte de análise. Mas isso fere a fé do médico brasileiro. Então a fala dele vem com um “não concordo”. Por quê? Porque sim. As conclusões dos interessantes estudos nos quais Lustig fundamenta sua fala não estavam nos livros do tal médico brasileiro. Então ele não pode acreditar, nem concordar.

É esse o nível do nosso debate.