Arquivo mensal: outubro 2016

O patrocínio de profissionais de Saúde

Há 2 jeitos de você comprar a opinião de uma pessoa a patrocinando. O jeito mais caro é você pagar para ela falar aquilo que você quer ouvir. O outro é você pagar para que ela NÃO fale aquilo que você não quer ouvir. É assim em nossas relações do dia a dia. Seu chefe “paga seu salário” para você falar aquilo que ele quer ouvir e você se calar para aquilo que ele não gosta. Não brigue comigo, culpe o jogo.

No mundo dos patrocínios é assim também. Você paga, e tem alguém vendendo seu produto por você na forma de propaganda. Na corrida funciona da seguinte maneira: você paga um treinador e, ou ele finge que não sabe que tênis não serve para muita coisa, ou ele veste a camisa da empresa e o atribui capacidades incríveis. Depende do preço, lógico. Sempre. Nunca é de graça. Nunca.

Na Nutrição funciona de outra forma.

Atualmente há um grande debate porque vieram novamente à tona patrocínios de grandes fabricantes de refrigerantes que patrocinavam instituições de saúde e de diabetes! Isso mesmo! De entidades que deveria defender o interesse de doentes daquela enfermidade que não permite que você beba bebidas açucaradas!

Porém, você deve estar se perguntando se os patrocinados não são mais fiéis à ciência do que ao patrocinador. Não, não são. Assim como já dei muita risada de piada sem graça de ex-chefe, sempre há um jeito de sermos mais fieis ao nosso bolso. A Observer em 2015 fez uma matéria MUITO pertinente mostrando como esses patrocínios de fato são eficientes! Os profissionais de saúde patrocinados recomendando seguidamente exercício e refrigerante!

E tem quem se venda por muito pouco, pouco mesmo. Abaixo veja como o simples ato de você pagar um almoço faz um médico receitar o remédio de quem pagou o almoço dele!

A cada almoço pago a um médico, aumenta a porcentagem de um determinado remédio receitado!

A cada almoço pago a um médico, aumenta a porcentagem de um determinado remédio receitado!

As pessoas fazem qualquer coisa por bem menos do que você imagina! Um par de tênis ao treinador e aumentam as chances da próxima maratona dos alunos dele ser com o tênis de quem banca a brincadeira!

Mas… e no Brasil?!

O CELAFISCS foi um dos institutos que apareceram na lista de parceiros de um fabricante de refrigerante. BINGO! Quando você recorre a eles para saber qual a solução para obesidade infantil, uma vez que ele é pago para NÃO falar a resposta que desagrade quem lhe paga, ele dá a mais conveniente: exercício. Ele terceiriza a culpa, ele dá risada da piada sem graça do chefe deles, como você pode atestar aqui ou na matéria abaixo.

Ele não é único, lógico. Ainda assim, quando o CELAFISCS fala algo sobre obesidade, acredite em mim, eles não valem nada!

Outro exemplo é a Sociedade Brasileira e Diabetes (SBD) que para mim é a maior patrocinadora pró-diabetes do país. Ninguém atua com mais dedicação em favor dessa doença, para azar das pessoas físicas que lhe pagam seus salários e ficarão doentes até o fim (antecipado) de suas vidas. Mas isso porque a equipe da SBD se mantem fiel às PJs que bancam seus simpósios. Eles são cuidadosos, não deixam muito à vista, mas use o Google Imagens e verá quem os patrocina. É sintomático. Cada fala de seu presidente, para mim, é um exemplo de fidelidade com fervor. Fidelidade a quem patrocina seu cuidadoso discurso que terceiriza a culpa, dá risada de piada sem graça, mas garante a venda dos fabricantes de remédios e alimentos inadequados aos enfermos.

Por fim, semana passada pude voltar à minha faculdade resolver umas pendências bobas. Nunca vi tanto curso extracurricular pago. Acho que quase todos ligando de alguma forma exercício com emagrecimento. A pessoa precisa saber SEMPRE de onde vem o dinheiro de que discursa. Isso explica muita coisa. Não espere nem mesmo de um Laboratório de Nutrição Esportiva, que deveria primar pela ciência, que ele abra mão de uma renda (os cursos são pagos, lembre-se!) que é o de transformar o exercício em emagrecedor.

Porém neste caso o modelo é o inverso, é o discurso de um instituto que patrocina toda uma categoria.

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A Eva foi a um Veterinário Clandestino

20161016_182608-1A cachorra da esquerda com cara de tonta é a Eva. No meio do ano passado ela decidiu tirar um ano sabático em uma chácara em Lavras (MG). Desolados, eu e a Maíra decidimos nos isolar em Dublin para lidar com tamanha perda. Voltamos esse ano decididos a convencê-la a mudar de ideia e de casa. Fomos até lá e a jogamos no porta-malas do carro porque manda quem pode, obedece quem tem focinho. Chegando em SP achávamos que ela ia perder um pouco dos muitos quilos que ganhou. Passaram-se semanas e nada. Foi aí que eu tive uma ideia maligna, sagaz, audaz: vou fazer essa cachorra emagrecer.

Lendo conselhos profissionais dão a ideia de uma academia para cachorros e dieta. Segurei o riso sobre a tal academia. Primeira providência mesmo foi limitar o acesso dela ao pote de ração. Há 5 animais que praticamente somente ganham peso com várias refeições ao dia: gado, galinhas, porcos, ovinos e humanos enganados por nutricionistas que prescrevem lanches a cada 3h. A 2a providência era mexer na dieta. Novamente um profissional sugeriu uma ração especial. Qual a diferença, perguntei: “a ração emagrecedora tem menos gordura”. Tenho 3 certezas sobre um veterinário que me recomenda isso: uma é que ele não sabe muito de fisiologia da insulina, outra é que ele acredita que quando um fabricante retira gordura do alimento, para compensar a massa perdida em seu lugar ele coloca esperança, fé e luz. E por fim, esse profissional, igual a Eva, quando pensa, o faz em 4 apoios. Saí de lá me fingindo de surdo.

Fui ao mercado e comprei barrigada suína por R$6/kg (a ração custa R$9/kg, o que só a torna ainda mais cara caso normatizada por R$/caloria). Praticamente zerei a oferta de ração pela manhã e comecei a dar apenas barrigada de noite. A Eva decidiu ela abandonar a ração. E ela não tem fome, já que na base da chinelad….-APAGAR – da educação e de muito carinho, ela foi ensinada pela Maíra a dar a pata para pedir comida. É sério. Ela não pede, espera o jantar. E come a carne. Nada mais. Resultado. Emagreceu. Voltou a ser a cachorra mais esbelta da Chácara Santo Antônio e a correr tiros a 4´00/km comigo na praça (ela pediu para eu enfatizar que ela é sempre sub-5).

A Eva pediu também para reforçar o que qualquer estudante de Nutrição deveria saber: estava sedentária porque gorda, não gorda porque sedentária. Muita gente não sabe disso, mas a Eva sabe.

A tonta do lado direito é a Pepper, recém-chegada e a maior fã da Eva que por ciúmes nutre ZERO sentimentos por ela. A mais nova está felizona porque também só janta carne agora (barrigada, moela, língua bovina… tudo mais barato que ração que tem batata, milho, soja, QUINOArgh…) e de manhã um pouco de ração com banha derretida.

Antes que alguém do CRMVSP venha me encher o saco, não perca seu tempo, vocês são SAFADOS como qualquer um do CRN, CFN, CREF, SBD, ASBRAN… Me diga qual seu preço que eu pago pra você não deixar comentário. Eu sei que é assim que funciona, eu sei que é isso o que você mais quer.

E quem for falar em insuficiência renal ou colesterol, deixo meu recado: não o faça em público… vai ficar claro para todo mundo que você não sabe da questão associativa e não causal disso…

Correr pode não engordar. Mas também pouco emagrece

New York Post fez a seguinte matéria com o depoimento de corredoras: “treinar para maratona me deixou gorda”. Basicamente o texto fala de uma armadilha muito comum, que é pessoas que decidem encarar o desafio de 42km não emagrecerem nem de longe o tanto que queriam. No caso das personagens do texto, elas ganharam bastante peso (e não é de músculo!) mesmo em um regime de exercício para correr a mais longa das distâncias olímpicas!

image005Isso está longe de ser exceção ou algo raro. Um estudo com pesquisadores feito com centenas de mulheres com sobrepeso, as submeteu a uma rotina de exercícios físicos por um período de 6 meses. Um grupo delas treinava 72 minutos por semana, outro 136 , outro 194 e um quarto grupo era o controle, sem treino. Contra todas as expectativas, não houve diferença de peso entre os grupos que treinavam e as sedentárias. Algumas, como as maratonistas, ganharam peso.

Talvez o melhor estudo já feito sobre maratona e peso é um estudo de 1989 com corredores treinando por 18 meses para correr 42km. Ao final do treinamento eles correram abaixo de 4 horas, um tempo melhor que a média dos corredores brasileiros e americanos, por exemplo. No período eles perderam pouco mais de 2kg, mas o mais desolador é saber que apenas metade disso foi gordura.

Resumidamente: por 18 meses correndo média de 9km/dia e os indivíduos emagreceram pouco mais de 1kg de gordura. É muito pouco! Corrida sem intervenção na dieta definitivamente está longe de ser uma grande emagrecedora.

No estudo, correr e treinar para maratona não emagreceu porque as pessoas ao final do treinamento comiam 400kcal a mais. Isso porque o corpo quando estamos treinando se ajusta com maior fome quase que instantaneamente, automaticamente e sem nutricionista nenhum precisando nos avisar disso. É por isso e entre outras coisas (das quais falo melhor aqui) que o exercício é ineficiente para o emagrecimento e não deveria ser JAMAIS a primeira abordagem na perda de peso. Não sou eu quem falo, são os inúmeros estudos.

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É impossível sair dessa encruzilhada quando a pessoa cai na armadilha de encarar o peso como uma questão de balanço calórico, ideia na qual MUITOS especialistas AINDA acreditam, por mais que evidências apontem a falha imensa do modelo. E infelizmente eles não são poucos. Duvida?

Pois o fechamento da matéria em questão é sintomático. A “expert” consultada recomenda que você TEM que comer algo antes do treino, durante o treino, e ainda comer “um monte de carboidrato” (pode até ser uma barra de energia!) até 45 minutos depois do treino. Ela está querendo dizer que para emagrecer você tem que se encher de comida várias vezes ao dia.

Faz sentido comer muito mais para conseguir emagrecer? Ela acha que faz.

Juro que não entendo…

Gordurafobia e o medo do Low-Carb.

"A dieta de pouca gordura que te dou há 20 anos te deu diabetes, pressão alta e doença cardíaca... ooops"

“A dieta de pouca gordura que te dou há 20 anos te deu diabetes, pressão alta e doença cardíaca… ooops”

Pouco mais de 3 semanas atrás um texto incrível do The New York Times (aqui traduzido ao português) ganhou destaque pelo número de compartilhamentos e porque Gary Taubes, pai do low-carb moderno, profetizou que ele poderia ser o ponto de virada para que finalmente os profissionais de saúde aceitem sem medo a dieta de baixo carboidrato (low-carb). 2 dias depois o mesmo veículo publicava outro texto incrível explicando como a indústria do açúcar transformou a gordura em vilã na Nutrição (aqui traduzido por Erik Neves).

O primeiro texto basicamente, mas muito bem fundamentado, argumenta de forma bem direta que antes de uma intervenção cirúrgica buscando emagrecimento, as pessoas deveriam tentar antes cortar o carboidrato da dieta porque ele é o macronutriente que de longe mais impacta os níveis de insulina no sangue. Este é o hormônio mais diretamente relacionado com o aumento dos estoques de gordura e que ao mesmo tempo impede que o corpo a utilize como energia.

Taubes em seu incrível livro Good Calories Bad Calories explica em uma pesquisa completa e minuciosa como que sem ciência definimos equivocadamente o controle de peso como sendo uma questão matemática, de déficit calórico, e não algo biológico e de disfunção hormonal; e Taubes ainda fala de como direcionamos todas as politicas de Saúde Pública em uma direção que causou a maior crise de obesidade da história ao promovermos exercício, dietas low-fat e dietas de baixa caloria como abordagens primárias no emagrecimento.

O que mais assusta na Nutrição não é o fato de muita coisa não possuir resposta. Isso é normal em inúmeros campos do conhecimento. O que mais preocupa quando o assunto é alimentação é que as diretrizes não são baseadas em estudos controlados nem em ciência, mas em desejo, boa vontade e torcida.

img-20150901-wa0015Enquanto escrevo isso, assisto ao Globo Repórter falando sobre hipertensão e diabetes. Quem sempre é procurada para falar é a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Ela mais parece a assessoria de imprensa da indústria farmacêutica e tem em seu presidente um torcedor que virou porta-voz deixando de lado seu diploma de médico e, mais importante, o seu juramento.

Eu falo isso porque eles têm o hábito de ignorar o que mostram os estudos controlados para continuar a medicamentar pessoas doentes. O texto do The New York Times cita 40 estudos falando sobre a segurança de se cortar carboidrato. Eles não são únicos. Aqui você tem mais 25 estudos comparando dieta low-carb com o que prega a SBD e colegas. E aqui você tem mais 54.

Você não precisa nunca acreditar em ninguém justamente porque os estudos estão disponíveis para quem quiser ver tirando o peso da torcida. A dieta low-carb se mostra segura, mais eficiente, logicamente mais sensata (já que reduz a liberação de insulina, o hormônio chave no processo de engorda) e NO MÍNIMO não inferior. Ou você pode fazer justamente o que muitos profissionais insistem em não fazer ao ignorar o que mostram os dados porque eles simplesmente não querem acreditar, e preferem ficar desatualizados.

Uma dieta low-carb está longe de ser infalível. Nosso corpo regula nosso peso por uma série de mecanismos que incluem ainda a quantidade de refeições, tempo de jejum, ciclo circadiano, estresse, sono… São justamente essas variáveis que impedem que a taxa de sucesso seja de 100%. Aliás, nunca será. Como disse aqui, não possuir todas as respostas é algo normal na ciência. O que não é normal é como quem vai falar sobre low-carb ignora o que já há produzido.